Vamos bater um papo?
Gostaria que refletíssemos um pouquinho sobre um provérbio indiano, que diz o seguinte: “O silêncio é pouco para um, suficiente para dois e demais para três.”
Sente-se comigo por um momento. Esqueça que isso é um “provérbio” ou uma lição antiga. Vamos olhar para isso como se estivéssemos observando o movimento de um pássaro ou o vento nas árvores.
Para uma pessoa como você, que vive em um mundo cheio de notificações, músicas e conversas constantes, isso pode soar estranho. Mas tem um sentido profundo que, se captado, pode fazer nossa vida fluir com mais leveza.
1. “Pouco para um” (solidão ou angústia)
Quando você está sozinho, o silêncio parece vazio, não é? Dá até um pouco de medo, tédio ou angústia sem motivo aparente. Você logo pega o celular para preencher esse “buraco”. Mas o silêncio para quem está sozinho é, na verdade, um espelho. Ele lhe mostra como você está, sem as máscaras da sua personalidade. Se ele parece “pouco”, é porque você ainda não descobriu a imensidão que existe dentro de você.
2. “Suficiente para dois” (comunhão ou intimidade)
Você já teve um melhor amigo ou alguém especial com quem poderia ficar sentado por horas sem dizer uma única palavra, e mesmo assim sentiu que tinha dito tudo? Isso é o silêncio “suficiente”. É quando a conexão entre duas pessoas é tão profunda, que as palavras se tornam barulhentas e desnecessárias. É uma forma mais pura de amizade: estar presente sem precisar provar nada.
3. “Demais para três” (desconforto ou exclusão)
Aqui está o segredo. Onde há três, há um grupo, há uma dinâmica social. Quando três pessoas ficam em silêncio, o desconforto surge. Alguém sente que precisa falar para “quebrar o gelo”. O silêncio entre muitos exige uma maturidade que raramente temos, pois o ego quer ser ouvido, quer opinar, quer se destacar. Em grupo, o silêncio pesa porque revela que, talvez, não estejamos tão conectados quanto pensávamos.
4. Uma lição para você
Não fuja do silêncio. Se ele for “pouco”, aprenda a se conhecer. Se for “suficiente”, aproveite a companhia. E se for “demais”, observe por que você sente tanta necessidade de preencher o espaço com barulho.
O silêncio é ausência de som; é a presença total da atenção. Você consegue experimentar um momento de silêncio total agora, sem tentar mudá-lo?
Sei que é difícil. Nunca aprendemos isso. Toda nossa “educação” foi voltada para a intelectualização. Sempre nos ensinaram a usar a cabeça para resolver problemas, mas nunca a como lidar com o barulho que as vozes na cabeça fazem.
Sempre fomos avaliados como espécie de hardware que roda um software. Funcionou? Ótimo: seremos alguém. Deu errado? Continuaremos um ninguém.
Independentemente da idade, mas sobretudo para os jovens, a pressão dos amigos e a ansiedade parecem um ruído constante, como se houvesse uma rádio ligada na cabeça o tempo todo, certo?
Para Jiddu Krishnamurti, a ansiedade surge porque estamos sempre tentando ser algo que não somos, ou fugindo do que somos agora. O silêncio seria a ferramenta para interromper esse ciclo. Veja como podemos aplicar isso.
5. Quando o grupo pressiona (o silêncio como escudo)
Muitas vezes, quando os amigos estão pressionando para fazermos algo ou agirmos de certa forma, nossa reação imediata é falar, se explicar ou ceder para “se encaixar”.
A prática. Experimente o silêncio da observação. Em vez de reagir na hora, silencie por dois segundos. Observe a pressão deles como se fosse um barulho vindo de longe. Nesse pequeno silêncio, você percebe que a opinião deles é deles, e não sua. Você não precisa carregar o barulho dos outros.
6. Quando a ansiedade ataca (o silêncio como espaço)
A ansiedade é uma conversa mental sobre o futuro: “E se eu falhar?” “E se não gostarem de mim?”. Isso é o oposto do silêncio; é um caos de vozes.
A prática. Não tente “expulsar” o pensamento ansioso – isso só cria mais barulho. Apenas escute a sua ansiedade como quem escuta a chuva. Não dê nomes a ela; não diga “isso é ruim”. Apenas fique em silêncio e sinta onde ela dói no corpo. Quando você para de conversar com a ansiedade, ela perde o combustível.
7. O silêncio no meio da multidão
Sabe aquele sentimento de estar sozinho, mesmo cercado de gente? Isso acontece porque você está tentando “falar” com o mundo através de filtros (o que postar, como se vestir).
A prática. Tente ser o “terceiro elemento” que o provérbio menciona, mas de um jeito sábio. Mesmo que o silêncio pareça “demais para três”, use-o para notar quem as pessoas realmente são além do que elas dizem. Quando você silencia seu julgamento, você começa a ver a verdade.
Parafraseando o mestre Krishnamurti, liberdade é encontrar esse silêncio onde o pensamento não consegue entrar. É nesse espaço que a ansiedade morre, porque ela não tem passado nem futuro para se alimentar.
O segredo não é parar de sentir ansiedade, mas, sim, criar um espaço tão grande e silencioso dentro de você, que a ansiedade se torne apenas uma formiguinha atravessando uma estrada larga.
Caso você esteja sob ansiedade, deixo-lhe um convite à reflexão: você sente que sua ansiedade vem mais de pensamentos sobre o futuro, ou da necessidade de agradar as pessoas ao seu redor?
Referências e sugestões de leitura
– Byung-Chul Han. A Sociedade do Cansaço.
– Eckhart Tolle. O Poder do Silêncio.
– Jiddu Krishnamurti. A Primeira e a Última Liberdade.
– Lao Tsé. Tao Te Ching.
– Rainer Maria Rilke. Cartas a um Jovem Poeta.





