O dito 18, do Evangelho Gnóstico de Tomé, soa enigmático. Mas, para os que o compreendem e vivenciam (no mínimo, experimentam, erram, consertam, acertam e crescem), torna-se mais uma pérola deixada por Jesus. Sem compreensão, vira letra morta e inútil, como vem sendo na prática todo o Evangelho, infelizmente. O estágio atual da humanidade fala por si.
Diz o seguinte: “Os discípulos perguntaram a Jesus: ‘Diga-nos como será o fim’. Jesus respondeu: ‘Vocês descobriram o começo para buscarem o fim? Pois onde está o começo, aí estará o fim. Feliz o homem que está no começo, pois ele entenderá o fim e não experimentará a morte.'”
Onde tudo começa: o convite à investigação
Imagine que você está em um cinema, tão absorto no filme que esquece da poltrona, do projetor e de si mesmo. Você sofre com o herói e odeia o vilão. O “começo” é o momento em que você percebe que existe uma luz projetando essas imagens. Sem luz e tela branca, não há drama. Parafraseando Krishnamurti, perceber a luz não é um esforço da mente; é o fim do esforço de se identificar com a imagem.
O “descobrir o começo” que você precisa é justamente esse retorno à tela em branco da consciência, antes que o filme do Ego comece a rodar.
O engano do “Eu” e a ilusão do tempo
A maioria de nós vive tentando resolver o final do filme. Perguntamos: “Para onde vou?”, “O que será de mim?”. Mas Jesus, nessa passagem, nos dá um choque de realidade: “Vocês já entenderam a semente para estarem tão preocupados com a árvore?”.
O que chamamos de Ego é um conjunto de memórias, medos e condicionamentos – é o passado. Se você vive no passado, você está “morto” para o presente. Por isso, quem “está no começo” (no agora, na fonte) não experimenta a morte, pois a morte é o fim do tempo, e quem vive na Consciência Pura habita o atemporal.
Para o jovem buscador: um guia de autorreflexão
Se você quer entender o que o Dito 18 significa na prática, não olhe para os livros. Olhe para a sua própria mente. Aqui está uma forma de entender isso.
1. A metáfora do rio
Você já reparou como um rio está sempre começando? A água que passa por seus pés agora nunca esteve ali antes. O rio não teme o oceano (o fim) porque ele é, em cada centímetro, o próprio movimento da água (o começo).
Nós, porém, somos como pessoas que tentam represar a água em baldes, chamando isso de “minha vida”, “minhas posses”, “meu conhecimento”. O balde apodrece. A água parada morre. Viver no “começo” é soltar o balde e deixar a água correr, ser o fluxo.
2. O espelho do mundo
O mundo é nosso espelho, como ensina a psicologia profunda.
Se você está cheio de medo, o mundo parece perigoso.
Se você está cheio de julgamentos, o mundo parece feio.
O conflito que vemos lá fora – guerras, bullying, preconceitos – é apenas o nosso barulho interno projetado em tela gigante. Se você descobre o “começo” (a sua natureza silenciosa), o espelho para de refletir monstros, passando a refletir a unidade, o belo, a luz.
3. O que é “estar no começo”?
Não é um conceito teológico. É um estado de observação sem escolha, como diria Krishnamurti.
Sabe quando você vê um pôr-do-sol maravilhoso e, por um segundo, seu nome, seus problemas na escola e suas inseguranças desaparecem?
Naquele segundo, você é o “começo”. Você não é um observador olhando para o sol; você é a própria experiência da beleza. Ali, não há morte, porque o “eu” (que é a única coisa que pode morrer) não está presente.
Um desafio para você
O condicionamento diz que você deve ser “alguém”: alguém que deve acumular, competir e chegar a um “fim” glorioso. A sabedoria diz o oposto: “A liberdade é encontrar o começo, e o começo é o vazio onde o novo pode nascer.”
Pergunte-se hoje:
Eu estou agindo por medo do que os outros pensem (vivendo no fim)?
Ou eu consigo observar meu pensamento sem tentar mudá-lo, apenas percebendo como ele nasce (voltando ao começo)?
Se você entender a raiz do seu pensamento, você entenderá o mundo inteiro. Não procure o paraíso no futuro. O paraíso é a ausência do “eu” que separa você da vida agora.
Referências e sugestões de leitura
Bruce Lipton. A Biologia da Crença<span;>.
Eckhart Tolle. O Poder do Agora.
Jean Yves-Leloup. O Evangelho Gnóstico de Tomé.
Jiddu Krishnamurti. O Seu Universo Interior.
Michael A. Singer. A Alma Indomável.
Osho. O Livro do Ego.





