Nascemos. Choramos, balbuciamos, buscamos o seio e, logo, engatinhamos para conquistar o mundo. Copiamos o que vemos, assimilamos o que nos dizem e chegamos a acreditar piamente que estamos aprendendo. Mas aprendendo o quê?
Na verdade, conta-se nos dedos os que, desde cedo, despertam para refletir sobre a natureza dessa jornada. O fato é que habitamos a impermanência: tudo, literalmente, morre.
No entanto, é precisamente quando algo fenece que o novo encontra brecha para ressurgir. Você já parou para considerar que, ao valorizarmos a morte, somos obrigados a repensar crenças, padrões e intenções?
O motivo é de uma simplicidade cortante: vamos morrer; só não sabemos quando. Pode ser agora, subitamente, ao fechar este texto; pode ser após uma discussão banal ou no ápice de uma glória mundana, como a posse em um cargo vitalício ou eletivo.
Essa finitude, contudo, é frequentemente ignorada em favor de um livre-arbítrio cego.
Caso você não dê muita ideia para o valor integridade, a espiritualidade, a mecânica quântica ou para as Leis da Vida trazidas pelo Bashar ou pelo Caibalion, também não tem problema: você também tem o direito, por livre-arbítrio, de escolher quais experiências em vida quer aproveitar, apesar de as consequências poderem não ser das melhores.
Nesse palco da vida, vale brincar de pragmatismo político, de corrupção, de abusos ou de manipulações. Mas não se iluda: os efeitos de suas escolhas permanecem colados à sua essência. Independentemente desse “detalhe” incompreendido pelas massas, o destino é comum: quando o sopro cessa, tudo o que o Ego acumulou – posse, poder e influência – torna-se cinza e rastro.
É por isso que os grandes mestres não temem a morte. Eles vivem em estado de presença absoluta, em sintonia com o ritmo da própria respiração. Não habitam o mofo do passado nem as ansiedades do futuro; não perdem a vida culpando o mundo por não se ajustar aos seus modelos mentais de apego.
Observe, por exemplo, o teatro político que nos consome. Se o mandatário de hoje o agrada ou o revolta, pergunto-lhe: se o desfecho das urnas contrariar sua vontade, você adoecerá? Se você já se sente consumido pelo ódio ao cogitar o que abomina, pare e respire. Lembre-se: você vai morrer. Em minutos ou em décadas, pouco importa.
Ao carregar esse amargor, você abre mão do frescor da existência porque acredita, num delírio de onipotência, que os fatos não deveriam ser como são.
Nós nos insurgimos contra os acontecimentos, mas eles já se foram; viraram passado. Gostar ou desgostar é um conflito criado por nós mesmos, alimentado pela ilusão de que o universo nos deve uma “vida justa”. Esquecemos o óbvio: para colher rosas, não se pode plantar cactos.
Essa resistência se torna ainda mais trágica quando perdemos o que amamos – amigos, familiares, o conforto material. Nessas horas, reagimos com resistência, luta e negação, acreditando que o conflito externo trará a felicidade de volta. Pura hipnose.
Enquanto você tenta derrotar o “inimigo da ocasião” – seja o político, o tempo ou a segurança pública -, a vida escorre por entre seus dedos. Você se esquece de agradecer até pela respiração que o sustenta agora.
Paradoxalmente, fazemos questão de ignorar que a morte é nossa companheira indissociável; estamos aqui apenas porque ela nos permite. Recusamo-nos a aceitar a morte de nossos desejos e jogamos a vida fora, tentando controlar o incontrolável.
Esse uso desastroso da mente é o que nos impede de viver com alegria e liberdade genuína. Fomos treinados para o medo, sob o pretexto de que a vida é perigosa, enquanto a única certeza absoluta – a nossa temporariedade – foi relegada ao esquecimento.
Como bem disse Michael Singer: “Não tenha medo da morte. Deixe que ela o liberte. Deixe-a incentivá-lo a experimentar a vida intensamente. Mas lembre-se: a vida não é sua. Por isso experimente a vida que está acontecendo, não a que você gostaria que acontecesse. Não desperdice um momento sequer tentando fazer outras coisas acontecerem; aproveite os momentos que lhe foram dados. A cada minuto, você está um passo mais perto da morte. É assim que se vive a vida, como se você sempre estivesse à beira da morte – porque, na verdade, está.”
Viver à beira da morte não é um convite ao desespero, mas ao despertar. É o único modo de, finalmente, estarmos vivos.
Referências e sugestões de leitura
Danilo Augusto. Bashar em Português.
Jidu Krishnamurti. Sobre a Vida e a Morte.
Lúcia Helena Galvão. Para Entender o Caibalion.
Michael A. Singer. A Alma Indomável.
Osho. O Livro do Viver e do Morrer.
Pema Chödron. Como Você Vive é Como Você Morre.
Sogyal Rinpoche. O Livro Tibetano do Viver e do Morrer.





