O medo que salva versus o medo que mata

Por que a mente insiste em criar problemas que não existem?

Renato R Gomes Administrador

Você sente medo?  Não se preocupe ou se envergonhe: o medo pode ser um sentimento saudável e protetor. É o caso de quando estamos vivenciando uma situação real de perigo, como acontece num assalto, na hipótese de um leão pular sobre o jipe ​​de turistas num safari, ou durante a prática de uma atividade radical às alturas. Esse tipo de medo é instintivo, desenvolvido com a evolução humana. É um medo instintivo, perfeito, protetor, indicador de discernimento, indispensável à sobrevivência de nossa espécie. Quem não é capaz de senti-lo, tem presumivelmente algum problema na amígdala cerebral, e a probabilidade de ter uma vida encurtada devido a escolhas ou decisões imprudentes aumenta.

Mas, se a vida humana no dia a dia é tormentosa ou assustadora, certamente não é por causa desse medo essencial. Todo o sofrimento humano está ligado a outro tipo de medo: o medo psicológico ou imaginário.  Desde bebê, começamos nosso “aprendizado”. Família, colégios, faculdades, sociedade, relacionamentos diversos, nos ensinam o que é seguro e inseguro, o certo e o errado, o justo e o injusto, o moral e o imoral. Toda a nossa concepção de vida é criada com base no filtro das informações por esse conhecimento acumulado e internalizado.

Estamos condicionados a pensar e agir por meio de padrões mentais e emocionais, sem nos darmos conta de que esses padrões definem o nosso mundo e, principalmente, que esse mundo está muitíssimo longe de ser real. Por uma experiência dolorosa de ontem, firmamos a verdade de que sofremos uma injustiça, fomos uma vítima, somos perseguidos, de que temos que fazer o impossível para que ela não se repita. Em suma, passamos a viver querendo controlar tudo; inclusive, o que é incontrolável: as circunstâncias da própria vida.

O que de fato podemos modificar para melhor não nos interessa: a compreensão e o uso inteligente da mente; a identificação de crenças enraizadas e seus efeitos nefastos sobre pensamentos, sentimentos e atitudes.  Afinal, para o nosso ego, o problema sempre são os outros; são as maldades; são os nossos “pecados originais”, que justificam o sarcasmo “amoroso” de “Deus”.

No fundo do inconsciente, gostamos de viver uma vida idealizada. Sem perceber, vemos as dificuldades e confusões em que nos metemos como normais. Temos muita resistência a mudar mentalidade e hábitos.  Damos a nossa vida para ficar na zona de conforto, de segurança psicológica, mesmo quando eventualmente descobrimos que, na prática, não vivemos, mas, sim, sobrevivemos em nosso mundo assustador, criado pelo crivo de ideias e julgamentos pessoais, aos quais chamamos de “realidade”. O humano de hoje, mesmo que bem-intencionado e com bom coração, é inconsciente e deliberadamente masoquista.

Michael Singer, em seu livro A Alma Indomável, traz uma mensagem preciosa que questiona essa necessidade de controle e definição:
“Você considera perturbadoras algumas situações que aconteceram no passado e vê o futuro como um mar de problemas em potencial. Suas definições do que é passageiro e indesejável, do que é bom e mau, vêm à tona totalmente porque você define de que modo as coisas precisam ser para que se sintam bem. Todo mundo sabe que está fazendo isso, mas ninguém questiona essa atitude. Nós achamos que precisamos desvendar como a vida deve ser e então transformá-la nisso aí. Só quem examinar esse comportamento a fundo e se perguntar por que precisamos que os acontecimentos da vida são assim ou assados ​​​​vai questionar essa suposição. Como chegamos à ideia de que a vida não é perfeitamente boa do jeito que é ou que não será boa no futuro? Quem disse que o jeito como a vida naturalmente se revela não está completamente certo? A resposta é: o medo.  então, por definição, ela não é boa. Na verdade, a dinâmica é bem simples: aquilo que não o inquieta é bom; aquilo que o inquieta não é. Definimos todo o escopo da nossa experiência exterior com base em nossos problemas íntimos. Se quiser alcançar um maior crescimento espiritual, você tem que mudar isso. Se você está definindo a criação com base na parte mais problemática do seu ser, como espera que a criação seja?  Ela vai parecer igualmente assustadora e problemática.”

O jogo interior do medo (uma reflexão prática)
A assertiva de Michael Singer é de grande impacto. Ele sustenta que dedicamos a existência a uma obstinada tentativa de enquadrar o mundo na nossa “moldura de conforto”. E se o mundo, invariavelmente, resiste a se ajustar? Irrompe o medo, a ira, a frustração.
Mas, em essência, como este processo se manifesta no nosso cotidiano?

1. A exigência da “aprovação iminente” (a crença da sobrevivência)
Consideramos o contexto de um concurso público, de um processo seletivo crucial, ou daquela oportunidade profissional almejada. A pressão é colossal, não é mesmo? Contudo, o que nos paralisa não reside na formalidade da prova, mas, sim, no que está subjacente a ela.
O papel do medo instintivo. Este medo nos impeliria à hipervigilância, ao foco apurado, dosando a adrenalina no nível ideal para o estudo produtivo e a execução da tarefa dentro do prazo.

A ação do medo psicológico. Ele se apropria da crença: “Caso eu não obtenha sucesso, minha vida será um insucesso”, ou “Minha competência é insuficiente”. Esta crença não é factual; é uma construção imaginária da mente. É esta imaginação que induz à paralisação, ao famoso “branco” no momento decisivo, ou à resistência precoce.

Conclusão. Não tememos a prova; tememos o julgamento interior que advirá se a realidade divergir da nossa idealização (“eu serei aprovado”). O sofrimento não está no resultado, mas na identificação com a crença do fracasso.

2. A ilusão do “controle digital” (a idealização constante)
Somos reféns da necessidade de controlar a nossa imagem. Recorremos a filtros digitais; exibimos apenas a porção mais atrativa de um evento, a viagem imaculada, o relacionamento sem fissuras.
A dinâmica do controle. Gasta-se uma energia imensurável para que o mundo (e nossa própria mente) se convença da veracidade da fotografia. A razão? Existe um pavor intrínseco: o de ser percebido como incompleto ou de ser discriminado ao expormos o nosso “eu” autêntico.
A sutileza enganosa. Como Singer aponta, definimos a vida com base nas nossas vulnerabilidades íntimas. Ao condicionar a felicidade à obtenção de um alto número de interações virtuais (curtidas), a satisfação é determinada pela nossa fragilidade intrínseca de insegurança. Se as interações não se concretizarem, a vida “não é satisfatória”.
A verdade inegável. A nossa serenidade de espírito jamais deveria depender de um algoritmo ou da aprovação externa. A paz reside na ausência da necessidade de ditar como as situações devem ser.

O convite final: reavaliar a premissa “deve ser sssim”
Reflitamos com atenção: quantos momentos plenos foram perdidos na vida por estarmos obcecados em controle, planejamento, ou nos angustiarmos por um futuro que sequer se concretizou?
O medo instintivo é um preservador da vida. O medo psicológico, em contrapartida, subtrai nossa vida, pois a mantém confinada ao passado (arrependimento) ou ao futuro (ansiedade).
A questão é: estamos vivendo para que a vida nos conceda trégua, ou em estado de serenidade, aceitando que a vida se desenrolará conforme sua própria dinâmica (com vicissitudes e grandezas)?
O verdadeiro amadurecimento emocional (ou evolução espiritual) manifesta-se no momento em que se abre mão das ideias do controle e se declara: “Aceito, vida. Desconheço o futuro ou seu desfecho, mas, o que vier, serei capaz de gerenciar sem sucumbir à crise.”
É um preço de simplicidade notável, que, não obstante, nos exige a coragem de encarar a própria consciência.

Referências e sugestões de leitura
David Hawkins. Disolver el Ego [espanhol].
Eckhart Tolle. O Poder do Agora.
Michael A. Singer.A Alma Indomável.
Jiddu Krishnamurti.A Primeira e Última Liberdade.
Osho. Medo: Entenda e Aceite as Inseguranças da Vida.