O Despertar além da Culpa

Por que o Amor não emite notas fiscais - e como isso muda a forma de entender tragédias, karma e liberdade.

Renato R Gomes Administrador

Venho refletindo há pelo menos três anos sobre a tese espírita do contrato kármico pré-reencarnatório. Aos meus olhos, essa interpretação da Lei do Karma se aproxima muito mais da velha Lei de Talião – o arcaico “olho por olho, dente por dente” – do que de uma Justiça Divina sustentada no Amor Incondicional.

Particularmente, considero difícil – para não dizer inconcebível – entregar a Deus (independente do que se entenda por “Deus”) qualquer mecanismo capaz de nutrir na mente humana sentimentos como culpa, vergonha e medo. Só que, na prática, é exatamente isso que a leitura punitiva do karma costuma produzir, ainda que com boa intenção. E existe um ponto em que a teoria começa a perder dignidade explicativa.

O que justificaria, sob uma lógica de “ajuste de contas”, um lavrador, trabalhando em sua horta, ser atacado, asfixiado e predado por um píton? Qual seria a “lógica cármica” de um mergulhador ser atacado por um tubarão branco à beira do litoral australiano? E como sustentar a ideia de “contrato” quando a vida mostra violências brutais contra seres vivos inocentes, tais como dóceis animais de estimação, bebês, crianças e idosos indefesos?

Nesses casos, muitas respostas acabam soando como uma tentativa de fechar um abismo com um slogan. E abismos não se fecham com frases bonitas.

A pergunta, então, muda de lugar.
Talvez o problema não seja “falta de explicação”. Talvez seja o nosso impulso de exigir que toda tragédia carregue uma moral, um bilhete divino, um “porquê” que torne o mundo psicologicamente seguro.

É aqui que o olhar de Jiddu Krishnamurti se torna cirúrgico e, ao mesmo tempo, libertador. Ele não começa tentando consolar a mente com respostas prontas.  Ele começa mostrando o que está por trás da busca por respostas: medo.

Quando o caos nos apavora, a mente tenta transformar o universo num tribunal.  A gente inventa um sistema de débitos e créditos cósmicos para sentir que existe controle, ordem, previsibilidade – como se a vida fosse auditada por uma contabilidade invisível.

Só que, para Krishnamurti, karma não é um carimbo metafísico nem um destino registrado no cartório celestial. Karma é o próprio movimento do pensamento e seus efeitos.

Se você envelhece com raiva hoje, o resultado é conflito hoje: no corpo, no olhar, nas relações, no mundo que você ajuda a construir. Isso é consequência viva; isso é causalidade real.

Mas afirmar que um sofrimento atual seria “pagamento” por um erro remoto, de séculos ou vidas atrás, muda a natureza da coisa: deixa de ser compreensão e vira sentença. E toda sentença, mesmo “espiritualizada”, fabrica um tipo de prisão psicológica: o medo de estar sempre em dívida com o universo.

Você percebe o efeito colateral disso?
A pessoa pode até continuar acreditando em “Deus”, mas passar a viver como se o Divino fosse um cobrador elegante: não grita, não xinga, não humilha…, mas cobra.
E amor não cobra. Amor não educa pelo terror. Amor não precisa que você se sinta preocupado para que você se torne bom.

Aqui entra Osho como um sopro de rebeldia lúcida: a existência não é um sistema penitenciário; ela é uma dança.
Uma serpente não é “agente da lei”. Um tubarão não é “executor cármico”. São forças da natureza fazendo o que a natureza faz.

Tentar colar sentido moral num evento biológico pode ser, muitas vezes, apenas uma pretensão do ego humano – aquele pedaço da gente que quer que tudo gire em torno do nosso enredo moral, porque aceitar a impermanência dá um medo danado!

E aí vem a virada que, para mim, é a mais limpa, a mais consistente e a mais compatível com a ideia de um Deus Amor:
talvez a reencarnação não seja um cenário para “queimar karma”. Talvez ela traduza um campo dimensional para despertar consciência.

Nessa leitura, o que se chama “karma” pode ser entendido menos como dívida e mais como condicionamento: padrões que se repetem porque ainda não foram vistos com clareza. Não é “o universo me punindo”; é “eu repetindo o que ainda não compreendi”.

Isso muda tudo. Porque, quando o centro é o despertar, a mudança não depende de tempo, nem de sofrimento acumulado, nem de “parcelas cármicas” a vencer. Ela depende de lucidez. E lucidez pode acontecer agora.

É por isso que a metáfora do quarto escuro é tão certa. Imagine um quarto escuro há décadas. Você precisa de décadas para iluminá-lo? Não. No instante em que a luz acende, a escuridão some.

O despertar é essa luz. Ele não pede “pagamento”; pede presença. Ele não negocia com culpa; ele chama para responsabilidade. E responsabilidade é bem diferente de culpa.

Culpa encolhe você, deixa você rígido, faz você se condenar. Responsabilidade lhe devolve poder: você olha para o que é, aprende, corrige, recomeça.

Se a vida fosse uma dívida eterna, seríamos escravos do passado. Mas se a vida é consciência, então amor, compaixão, paciência e coragem praticadas agora têm força transformadora real – não como moeda para comprar absolvição, mas como expressão de uma inteligência que desperta.

E, aqui, volto ao ponto inicial, porque ele é o coração do texto: a ideia de um “Deus” que exige sofrimento como resgate se parece mais com um impulso humano de vingança (ainda que “bem vestido”) do que com uma Justiça Divina fundada em Amor Incondicional.

Talvez o sentido da existência não esteja em decifrar contratos passados. Talvez seja melhor usar o livre-arbítrio para transformar o medo constante ou intermitente no amor hoje.

Quando a gente troca a culpa pela responsabilidade, e o medo pela presença, a “vida” cotidiana – muitas vezes reduzida à mera sobrevivência – deixa de parecer uma pena judicial, e passa, finalmente, a parecer vida como graça.

Referências e sugestões de leitura [que sustentam o eixo do texto (medo > tribunal > culpa) versus (presença > lucidez > responsabilidade).

– Atanagildo (pelo medium Hercílio Maes).  Semeando e Colhendo (recomendado como ponto de partida da tese questionada, permitindo uma análise comparativa e simbólica).

– Jean-Yves Leloup. O Evangelho de Tomé (para quem busca uma visão cristã primitiva e gnóstica, focada no Reino interno e não no julgamento).

– Jiddu Krishnamurti. A Primeira e a Última Liberdade (para entender como a mente cria prisões através do medo e da busca por segurança).

– Jiddu Krishnamurti. O Despertar da Inteligência (em inglês).

– Osho. Liberdade: A Coragem de Ser Você Mesmo (um convite à responsabilidade individual acima de qualquer destino traçado).

– Osho. O Livro dos Segredos (uma enciclopédia sobre o despertar da consciência além dos dogmas).

– Shunryu Suzuki. Mente Zen, Mente de Principiante (para aprender a olhar a vida com o frescor do “agora”, livre de contratos passados).