A bússola da alma vs a bússola da mente

Três passos para escolhas e decisões livres de medo e com plena integridade.

Renato R Gomes Administrador

Tomar boas decisões no dia a dia é menos sobre técnica e mais sobre o estado de ser no momento da escolha. A experiência demonstrou-me que, ao sintonizarmos nossos pensamentos, sentimentos e intenções, entramos em um estado de integridade, fundamental para realizar escolhas que geram “boas semeaduras” em nossa vida.
Para desenvolver esse discernimento, propomos um caminho prático, estruturado em três critérios de alinhamento interno.
Vale antes uma observação. Tenho como referência o mestre Krishnamurti, que era avesso a métodos. Mas, seguindo minha vivência, sinto que, para quem está começando no autoconhecimento, um método inicial pode ser um auxiliar valioso. Cada um saberá por si quando será o momento de abandoná-lo, pois a clareza se tornará imediata.
Também como complemento, deixarei, com minhas palavras, a leitura que faço das ideias de Krishnamurti, para aqueles interessados numa reflexão mais profunda.
Passo 1: o alicerce da intenção pura
O primeiro passo é estabelecer um objetivo honesto e uma intenção crística. Isso significa que a busca deve ser motivada pelo bem maior, pela verdade e pela não violência. Inconcebíveis, portanto, são os jeitinhos, os pragmatismos políticos, os utilitarismos sociais ou as segundas intenções. O alicerce da escolha reside na pureza inegociável do propósito.
Refinamento de Krishnamurti (para aprofundamento)
A verdadeira pureza não é o resultado de uma “intenção crística” que você se esforça para seguir, baseada em memória ou dogma; é uma ausência de egoísmo. A questão não é “Este objetivo está alinhado com um ensinamento passado?”, mas, sim “Há honestidade e compaixão aqui e agora, ou há autoengano, desejo de ganho ou medo disfarçado?” A bondade é um estado do ser, não uma fórmula de conduta.
Passo 2: a bússola da motivação interna (coração)
O segundo passo exige que nossa motivação emocional ou sentimental seja genuinamente positiva. A chave é reconhecer a diferença entre as emoções que nos fragmentam e os sentimentos que nos integram.
Sinais de alerta (fragmentação): medos psicológicos, preocupações, desesperos, pressas, pressões e urgências jamais devem ser o motivo intrínseco de uma decisão consciente. Tais emoções derivam da projeção mental de um futuro caótico.
Sinais de alinhamento (integração): sentimentos como alegria pura, empolgação, compaixão e gratidão, sinalizando que estamos no caminho, surfando no fluxo natural da vida.
Refinamento de Krishnamurti
O verdadeiro obstáculo não é o sentimento “negativo”, mas a divisão entre a mente (o pensamento) e o sentimento (o coração). O medo surge da mente que se apega à memória e projeta incerteza no futuro. O discernimento não é um conflito entre razão e coração; é a inteligência total que surge quando o pensamento compreende suas próprias limitações e silencia. Se há urgência ou pressa, a mente está fragmentada. O ato de observar o medo sem julgá-lo ou tentar fugir dele é o que dissolve o conflito, permitindo que a ação seja clara, e não reativa.
Passo 3: a Lei da Responsabilidade Total
O terceiro e inegociável passo é garantir que nossa escolha ou decisão não reflita negativamente sobre terceiros que não tiveram responsabilidade alguma no que resolvamos fazer.
Uma decisão consciente exige que o indivíduo assuma uma responsabilidade plena. Se algo não sair como o imaginado, apenas nós devemos arcar com as consequências. Não podemos sequer pensar que nossos erros respinguem sobre outros. Este é o teste final de integridade de uma ação.
Refinamento de Krishnamurti
Este passo é uma ação impessoal e não egoísta. A verdadeira responsabilidade não é um projeto ético sobre quem será afetado, mas uma expressão natural de compaixão. Se a ação surge do estado de não medo (passo 2) e da pureza (passo 1), ela será intrinsecamente benéfica para o todo. A responsabilidade é inerente à clareza.
Aplicação: a prova dos três passos
Para ilustrar a aplicação desses critérios, observemos como eles operam na vida real, do mais simples ao mais complexo.
1. Decisão fácil: o poder da compaixão
Lembro-me de quando tinha cerca de sete anos. Por volta das 23h, o silêncio pairava na rua. De repente, ouvimos uma senhora, cercada por vários filhos pequenos, chorando, implorando por comida em voz alta. Minha mãe se comoveu instantaneamente. Foi à geladeira, pegou toda a comida que havia e me pediu para descer e entregá-la. A senhora se emocionou, agradeceu imensamente, e a cena ficou gravada como um exemplo de compaixão desinteressada.
Intenção: satisfazer a necessidade básica de um “irmão” (passo 1: crística).
Motivação: sentimento de compaixão (pura, positiva, desinteressada e sem medo. Passo 2: alinhado).
Responsabilidade: ninguém foi prejudicado. Pelo contrário: o ato gerou benefício imediato à senhora e bem-estar em nós (passo 3: totalmente cumprido).
2. Decisão relativamente difícil: a tirania do medo (onde há “espaço” para discernir)
O triênio 2020-2022 foi marcado pelo domínio do medo sobre a fé: medo de morrer, de perder entes queridos, de perder o emprego, de viver. Durante a crise da COVID-19, muitos vivenciaram o dilema de tomar ou não a vacina, especialmente sob a imposição de governos e empresas. Intimamente, muitos não desejavam fazê-lo, seja por desconfianças políticas ou por razões que confrontavam o argumento oficial.
Quem cedeu à obrigação por motivos externos, contrapondo-se à própria consciência, violou o passo 2. A decisão não nasceu da paz, mas do medo: “E se eu perder o emprego? Como vou sustentar minha família?” Essa projeção mental do caos pessoal, fundada no medo psicológico, tornou-se a justificativa dominante. O conflito entre a razão (as ideias “logicamente” articuladas) e o coração (o medo, a angústia, decorrentes da incompreensão de acontecimentos muito mais amplos do que aqueles que achamos que vemos) demonstra a dificuldade em “ler” o contexto com a sintonia fina entre a mente e o centro da consciência.
3. Decisão muito difícil: o engano da urgência (onde não há “espaço” para discernir)
Imagine alguém dedicado ao autoconhecimento há anos, que recebe uma ligação de urgência do “sistema de segurança” do banco: “Sua conta bancária foi bloqueada devido à detecção de transações fraudulentas que destoam do seu perfil.” O contexto é tão bem montado, que uma pessoa confia que ocorreu uma fraude e segue as orientações para “restaurar a segurança” e o acesso perdido. Somente após ter descoberto a fraude, já livre do “transe hipnótico”, ela percebe ter sido iludida, viabilizando o estelionato, porque não estava atenta, presente, para discernir e perceber que estava infringindo o passo 2 (mal-estar emocional agudo e persistente negligenciado).
Nesse caso, a intenção era honesta (regularizar a conta e cancelar supostas transações criminosas), cumprindo o passo 1. O fracasso deu-se no passo 2: o sentimento de urgência súbita, o incômodo e o mal-estar foram sinais claros ignorados pela obsessão cega de resolver a questão. A confiança açodada depositada em uma voz desconhecida do outro lado da linha, abrindo mão do discernimento que potencialmente existiria em estado de presença, demonstra que a escuta do coração – que exigia, no mínimo, a interrupção da conexão para respirar e retornar ao centro da consciência – foi obstruída.
A libertação da prisão do pensamento
Ao final, a verdade mais íntima e libertadora é esta: ao compreendermos como interagem as linguagens da mente e do coração, e ao observarmos o pensamento incessante sem nos identificarmos com ele, a Fé no Desconhecido (Deus) se torna cada vez mais racional, consciente e inabalável.
Nesse estado de profunda autoconsciência – o verdadeiro “conhece-te a ti mesmo” -, a Vida e o sofrimento se tornam antagônicos. O sofrimento não é mais uma necessidade, mas, sim, o resultado da nossa própria resistência e fragmentação interna.
Sugestão de autorreflexão
Estes três critérios fazem sentido para você? Não acredite neles por mera afinidade, nem os despreze por simples ceticismo. Sugerimos que você os teste e experimente no seu dia a dia, começando pelas situações mais simples. Dê-se o direito de melhorar a qualidade de sua vida. Não lhe custa nada; não se perde nada.
Pense nisso.

Referências e sugestões de leitura
Aristóteles. Ética a Nicômaco

Eckhart Tolle. O Poder do Agora.

Jiddu Krishnamurti. A Primeira e a Última Liberdade.

Kahlil Gibran. O Profeta.

Osho. Coragem: o Prazer de Viver Perigosamente.

Osho. O Barco Vazio.

Tomás de Kempis. A Imitação de Cristo.

Viktor Frankl. O Sentido da Vida.