Pare um instante. Olhe para a sua vida hoje. Você já viu quanta energia gasta tentando garantir que o “amanhã” seja exatamente igual a um “ontem” que lhe agradou? Preste atenção na seguinte reflexão de Michael A. Singer:
“Talvez a mudança só aconteça quando há motivo suficiente para superar a inércia da vida cotidiana. As situações desafiadoras criam a força necessária para provocar a mudança. O problema é que geralmente usamos toda a energia que deveria provocar a mudança para resistir a ela.” [A Entrega Incondicional]
Ele nos traz uma verdade incômoda: a mudança só costuma acontecer quando os incômodos de ficar parado se tornam maiores do que o medo de seguir adiante.
É como se vivêssemos dentro de uma represa que construímos com muito esforço. O problema é que a vida não é uma represa; a vida é o rio. E o rio, por natureza, corre.
O paradoxo do controle
Nós fomos educados sob uma ilusão perigosa: a de que segurança é sinônimo de imobilidade. “Consiga um emprego estável”, “compre uma casa”, “mantenha as aparências”. Criamos uma zona de conforto que, na verdade, é uma fortaleza de medo.
O paradoxo é gritante: a vida é mudança incessante – as células do nosso corpo morrem e nascem agora, as estações mudam, o clima oscila – e, no entanto, tendemos a gastar toda a nossa força vital tentando congelar o tempo.
Imagine tentar segurar a água de uma cachoeira com as mãos nuas. O cansaço que você sente ao final do dia talvez não seja do trabalho em si, mas da resistência exaustiva de luta contra o fluxo natural da existência.
As mentiras que nos contaram
Por que temos tanto medo? Porque fomos alimentados com posturas falsas desde o berço:
A escassez: a ideia de que “não tem para todo mundo”, o que nos torna acumuladores ansiosos.
O status: a crença de que você só “é” alguém se obtiver um título ou um saldo bancário.
O perigo: o mundo visto como um campo de batalha, e não como um campo de experiências.
Para um jovem hoje, a pressão é imensa. Você sente que precisa “ser alguém” antes mesmo de descobrir quem realmente é. E, quando conquista algo, passa a viver em função de não perder. Você se torna escravo do que possui.
Quando a vida “grita”
A vida é uma professora paciente, mas firme. Se você se recusa a ouvir o sussurro da mudança, ela acaba gritando.
Você se acha invencível e foca apenas no poder? Talvez uma doença venha a lhe recordar a sua fragilidade.
Você vive apenas pelo acúmulo financeiro? Talvez a perda de um ente querido mostre que o dinheiro é um papel inútil diante da saudade.
Isso não é um castigo divino: é a vida tentando despertar a gente do sono da inércia. É o universo quebrando a sua casca para que você possa, finalmente, se expandir.
O convite à liberdade
O autoconhecimento não é ler livros difíceis; é observar como você reage quando as coisas não saem do seu jeito. O seu “gostar” e “não gostar” são as grades da sua prisão.
Se você aceita o que a vida apresenta – seja um desafio no trabalho, o fim de um relacionamento ou uma mudança inesperada de rota -, você para de gastar energia resistindo e começa a usá-la para viver.
A verdadeira segurança não está em controlar o que acontece lá fora, mas em estar em paz como o que acontece aqui dentro. Não espere para se tornar insuportável para mudar.
Comece a observar agora: onde você está resistindo ao fluxo? O que aconteceria se, por um momento, você apenas soltasse os remos e confiasse na correnteza?
Referências e sugestões de leitura
David Hawkins. Deixar Ir: o Caminho do Desapego.
Eckhart Tolle. O Poder do Agora.
Jiddu Krishnamurti. A Primeira e a Última Liberdade.
Marco Aurélio. Meditações.
Michael A. Singer. A Entrega Incondicional.





