Qual seria o ponto central da ignorância humana? Um mestre como Jiddu Krishnamurti diria que é a identificação com aquilo que pensamos ser. Em outras palavras, a identificação com a imagem que construímos de nós mesmos, conhecida como “eu”.
O “eu” nada mais é do que um feixe de memórias, gostos e aversões. Quando você diz “eu gosto” ou “eu não aceito”, você está apenas fortalecendo essa estrutura morta do passado contra o movimento vivo do presente.
A mente que julga através de lentes (azul, amarela ou vermelha) é uma mente fragmentada, e uma mente fragmentada jamais poderá perceber o que é o Todo, o que é a Verdade.
Para Krishnamurti, o autoconhecimento não é o acúmulo de saber sobre si mesmo, mas o que ele chamava de “observação sem escolha” (consciência sem escolha) de como esses filtros funcionam.
No momento em que você percebe – não intelectualmente, mas de fato – que o “observador é o observado”, a resistência aos acontecimentos cessa. O conflito termina não porque você “controlou” seus gostos, mas porque compreendeu a falsidade deles.
Viver orientado por gostos e aversões é, em última análise, escolher uma vida de resistência. É como tentar erguer barragens em um rio que nunca para de correr. O resultado dessa arquitetura mental é o sofrimento, uma sombra que projetamos sobre nós mesmos enquanto buscamos um controle que, na verdade, jamais possuímos.
Desde a infância, somos artesãos de nossas preferências. Aprendemos a perseguir o prazer e a repudiar o desconforto como se estivéssemos em uma batalha de sobrevivência. Fomos ensinados a carimbar a realidade com etiquetas de “certo”, “errado”, “justo” ou “moral”.
O problema é que esse processo é tão rápido que confunde o acontecimento bruto com o julgamento que fazemos dele. Acreditamos que o fato é ruim, quando, na verdade, é apenas o nosso filtro que o tinge de amargura.
Somos bilhões de universos ou poeiras cósmicas isolados, cada um usando uma lente personalíssima – azul, amarela, vermelha. É natural que o mundo seja um palco de conflitos incessantes; não estamos discutindo a realidade, mas as cores das nossas próprias lentes. Esses filtros não são apenas pensamentos; eles estão emaranhados em emoções, interesses e feridas antigas.
Buscamos a previsibilidade para comprar uma sensação de segurança psicológica. Agarrados ao script de que o mundo é um lugar de escassez e que a competência é a única arma, tornamo-nos escravos de nossas ideias. Jesus já havia percebido a ignorância humana há dois milênios: “Pai, perdoe-os, pois não sabem o que fazem”.
De fato, agimos no escuro, crentes de que somos os senhores da luz. À medida que a autoconsciência desperta, começamos a notar que nossos gostos e aversões são filhos de crenças (sempre limitantes). Elas não apenas estreitam nossa visão, mas nos impedem de aceitar o fluxo natural da vida.
Lutamos contra as circunstâncias, tentamos mudar o outro, acusamos ou tachamos facilmente alguém de “culpado” e, no fim das contas, colhemos apenas cansaço.
É uma insanidade tentar alterar o cenário externo enquanto ignoramos que o incêndio está em nossa própria mente. O “pensamento, logo existe” de Descartes ainda nos mantém estagnados: acreditamos que somos nossos pensamentos e, por uma lealdade equivocada a eles, sacrificamos nossa paz.
Vejamos a geopolítica, onde o apego às ideologias cega a pessoa, quando não a transforma numa fanática. Quando um fato ocorre – como a queda ou prisão de um líder controverso -, a reação das massas é o espelho de seus filtros. Uns celebram; outros repudiam; poucos observam.
O apego a utopias ou ideais abstratos faz com que o indivíduo resista ao fato consumado, como se sua negação pudesse desfazê-lo. A resistência retroalimenta o padrão vicioso, e o sofrimento se torna o preço de não se querer abrir a mão de uma imagem mental.
Nada disso nos foi ensinado em casa. Fomos treinados para ser ingratos e cronicamente insatisfeitos, sempre esperando que a vida se curve aos nossos caprichos. Mas a liberdade real – aquela que o autoconhecimento oferece – não está em ter o que se gosta, mas em compreender a natureza de quem gosta e de quem desgosta.
Ao deixar de ser refém desse ego reativo, finalmente começamos a viver. Não mais contra a vida, mas como parte indissociável de seu fluxo magnífico e impessoal.
Referências e sugestões de leitura
– Don Miguel Ruiz Jr. Os Cinco Níveis de Apego.
– Eckhart Tolle. O Poder do Agora.
– Jiddu Krishnamurti. O Livro da Vida.
– Ken Keyes Jr. Guia para uma Consciência Superior.
– Michael A. Singer. A Alma Indomável.
– Michael A. Singer. A Vida sem Amarras.
– Michael A. Singer. Entrega Incondicional.
– Viktor Frankl. Em Busca de Sentido.





