O segredo de quem nunca nasceu

Como usar os desafios da vida para descobrir a fonte da alegria que não tem fim.

Renato R Gomes Administrador

Compreender a vida nos demanda uma investigação profunda. Não externa, mas, sobretudo, interna. Como ensinava o mestre Krishnamurti, precisamos primeiro esvaziar a mente de conclusões e reflexões religiosas.

A sabedoria não está no acúmulo de conceitos, mas na observação direta do que é. O homem consciente sabe que não é o próprio corpo.

No fundo, ele sabe que deve se libertar de ideias de senso comum, de comportamentos de massa, da influência quase que irresistível do que é conhecido, para ir além da concepção de vida como sendo o período entre nascimento e morte.

O corpo é um processo biológico sujeito ao tempo; a consciência, quando livre do “eu” (do ego, das memórias, dos traumas), pertence ao atemporal.

A vida a que estamos acostumados tem sido dolorosa. Não compreendemos as “pedras” no caminho e por que obrigatoriamente temos que encará-las. Difícil aceitar a possibilidade de que “pedras” (desafios da vida) possam aparecer para nos servir como seres humanos.

Para a mente fragmentada por infindáveis crenças que a cegam, pensamentos contraditórios e sentimentos negativos, qualquer problema torna-se um obstáculo. Por outro lado, para a mente integrada, o problema é o próprio espelho onde a verdade se revela.

Essa perspectiva ganha luz no Dito 19 do Evangelho Gnóstico de Tomé, que traz uma mensagem de Jesus aparentemente misteriosa. Considerando que a Boa Nova veio para se eternizar, é natural que apenas aqueles abertos a mudanças pessoais profundas sejam capazes de compreendê-la e internalizá-la. Como diz o ditado oriental: “Quando o discípulo estiver pronto, o Mestre aparece.”

Dito 19: Jesus disse: ‘Bendito é aquele que existia antes de existir. Se você seguir as minhas palavras, até as pedras lhe servirão. Há cinco árvores no Paraíso, imutáveis e perenes. Quem as conhece não experimentará a morte.'”

O diálogo: o encontro com o atemporal
Imagine um jovem sentado à sombra de uma árvore, inquieto com a brevidade da vida e a confusão do mundo. Cheio de dúvidas, pergunta: “Mestre, o que significa existir antes de nascer? E que árvores são essas que prometem o fim da morte?” A resposta flui com a serenidade de quem não ensina, mas aponta o caminho:

“Ouça com atenção; não com o intelecto que busca definições, mas com o coração que busca clareza. O Dito 19 de Tomé nos diz: ‘Bendito é aquele que existia antes de existir’. Isso parece um paradoxo, não é?

Mas olhe para uma onda no mar. Antes de ela ganhar forma e nome como ‘onda’, ela já era o oceano. Você, antes de se identificar com seu nome, sua nacionalidade e seus medos, é a própria vida manifesta.

O homem consciente entende que o  fato de habitar um corpo não o torna o corpo. O corpo é uma morada temporária; a consciência é o espaço vasto.

Quando você compreende isso – não como uma teoria, mas como um fato vívido – as ‘pedras’, que são as dores, as perdas e os conflitos do cotidiano, deixam de ser inimigas.

Elas se tornam o material da sua transformação. Você passa a ser grato por cada respiração, pois cada instante é uma eternidade em si mesma.

Sobre as cinco árvores no paraíso, elas não são plantas físicas em um lugar distante. Elas representam as faculdades da percepção pura que florescem quando a mente está em silêncio:

A atenção plena: onde não há separação entre quem observa e o que é observado.
O amor sem objeto: não é desejo, mas um estado de ser que nutre tudo ao redor.
A inteligência criativa: não vem dos livros, mas da observação direta da vida.
A paz inabalável: o frescor da essência humana que permanece mesmo no centro da tempestade.
A verdade: a árvore da realidade nua, livre de ilusões e projeções.

Essas ‘árvores’ são imutáveis ​​porque não dependem do pensamento para existir; são a própria estrutura do sagrado.

Aquele que as ‘conhece’ não experimenta a morte, porque a morte só pode levar o que é temporal: suas posses, sua reputação e a imagem construída com a qual você se identifica (Ego).

O que é perene não é tocado pelo tempo. Integrar-se a essa natureza é descobrir que você e o cosmos são um só movimento.”

Alicerces da sabedoria: sugestões de leitura
Para aprofundar essa percepção de que a vida e a morte são um único fluxo e que a liberdade reside na observação sem julgamento, sugiro este conjunto de obras:

Baruch de Espinosa. Breve Tratado sobre Deus, o Ser Humano e sua Felicidade [Oferece o rigor lógico que equilibra a mística. Espinosa fala à razão que busca a liberdade, provando que ser consciente é, antes de tudo, ser lúcido].

Eckhart Tolle. O Poder do Silêncio [Para aterrar a teoria na prática da presença absoluta].

Jean Yves-Leloup. O Evangelho de Tomé [Uma análise profunda e mística sobre os ditos gnósticos].

Jiddu Krishnamurti. A Primeira e a Última Liberdade [Uma base para entender como a mente se liberta do conhecido].

Sogyal Riponche. O Livro Tibetano do Viver e do Morrer [Explora a continuidade da consciência e a natureza da mente além do corpo].