Damos valor a todos os pensamentos e sentimentos. Curiosamente, sequer notamos as qualidades deles. Mas é compreensível, porque acreditamos piamente que pensamentos, sentimentos e ideias a eles vinculadas integram o nosso jeito de ser, a nossa personalidade. Em suma: identificam quem somos. Não temos noção dessa nossa programação interna. Daí, por darmos valor, viramos as vozes da mente, as angústias e ansiedades, as felicidades e euforias, os calafrios e os prazeres do corpo. Se bons, justos, certos, ficamos satisfeitos e fazemos de tudo para não perdê-los ou agarrá-los a qualquer preço. Mas, se ruins, injustos, errados, nos irritamos, acusamos, reagimos, sentimos vergonha, culpas…, ao ponto de abrirmos mão de nosso bem-estar para lutar insanamente contra eles.
O dr. David Hawkins, psiquiatra, psicoterapeuta, um sábio, faz uma constatação cirúrgica que merece uma reflexão:
“Uma vez que os pensamentos se despersonalizam como se fossem objetos, eles se desvalorizam e perdem sua atração. Os pensamentos e os sentimentos surgem do desejo, e a mente deseja o que valora. Para liberar a mente, simplesmente basta notar que nada em absoluto tem um ‘valor’ ou uma ‘valia’ únicos e especiais, exceto mediante a crença que se inverte, se sobrepõe e se projeta sobre algo. Portanto, retire o valor, a valia, a importância e o interesse sobre eles [pensamentos e sentimentos].” (Disolver el Ego, p.79)
O dr. David Hawkins, com precisão cirúrgica, aponta para a porta da liberdade mental. O nosso tormento — o ato insano de nos agarrarmos ou lutarmos contra os próprios produtos da mente — denota com exatidão a condição humana de escravidão.
A questão central não é sobre ter pensamentos e sentimentos, mas sobre o valor que lhes damos, e o drama que criamos quando esse valor nos define.
A dança da crença e a cessação do conflito
O que dr. Hawkins nos oferece é uma visão extraordinária: o pensamento e o sentimento apenas têm atração e poder sobre nós porque nós investimos neles o nosso “Eu”. Se o pensamento é um mero objeto, uma nuvem que passa no céu da consciência, por que o acolhemos, o combatemos ou o usamos como identidade?
A mente – como diz dr. Hawkins – deseja o que valoriza.
Mas quem é o agente que atribui ou confere esse valor? É a crença. É a projeção do ego. O ego nada mais é do que o acúmulo de todas as crenças e valores que aceitamos sobre nós e sobre o mundo. Ele só existe através do conflito e da valorização.
Para que a transformação da mentalidade ocorra, não é preciso lutar, mas ver claramente.
Para o jovem e o leigo: a moeda sem lastro
Imagine que a sua mente é um vasto cofre cheio de moedas. Cada moeda é um pensamento ou um sentimento: “Eu sou incapaz”, “Eu mereço aquilo”, “Aquela pessoa me ofendeu”, “Esta felicidade deve durar para sempre”.
Nós gastamos a vida contando essas moedas, brigando para agarrar o “ouro”, e tentando atirar fora o “ferro”.
Dr. Hawkins sugere que peguemos uma dessas moedas para examinar.
Despersonalizar
Note que essa moeda não é feita da sua essência, nem é a sua mão que a está segurando, mas, sim, algo que chegou até à sua mão. É um objeto.
Retirar o valor
Simplesmente veja que a moeda, por mais brilhante ou enferrujada que pareça, não tem lastro. Ela não tem valor intrínseco. O valor foi um carimbo imaginário que a sua mente, baseada num desejo ou medo passado, projetou sobre ela.
Quando vemos que a moeda é apenas um pedaço de metal sem valor real, sua atração desaparece. Não lutamos por ela, e nem contra ela. Ela cai naturalmente da mão. O desejo (de ter ou de se livrar) morre na exata medida em que a valia atribuída é retirada.
Para o intelectual arrogante: a grande incoerência
A mente intelectual, orgulhosa da sua capacidade de analisar, de debater e de acumular conhecimento, é, de todas, a mais prisioneira do valor projetado. O intelecto transforma o pensamento numa identidade: “Eu tenho o conhecimento de que estou certo.”, “O meu ponto de vista é superior.” Ainda mais numa sociedade em que “ter QI alto” é visto com motivo para se vangloriar ou se achar superior a quem não tem um raciocínio lógico primoroso!
Aqui, o valor não é apenas um sentimento; é uma estrutura de base, que sustenta sua aparente superioridade.
O ensinamento do dr. Hawkins exige que o intelecto faça a sua autorreflexão mais profunda e humilde: se o seu valor pessoal depende da solidez dos seus pensamentos, quão sólido é você realmente?
O intelecto diz: “O meu pensamento ‘X’ é importante porque me defino como inteligente.”
A constatação do dr. Hawkins responde: “O seu pensamento ‘X’ é um objeto. O valor que você lhe atribui é a única coisa que o torna importante, e você o atribui apenas para se sustentar, sustentar sua imagem, sua ‘credibilidade’ perante terceiros ou perante a sociedade de desempenho, cobranças e comparações.”
O apego fervoroso à “verdade” de conveniência ou ao próprio “conhecimento” não é prova de inteligência, mas uma prova da necessidade egocêntrica de se sentir importante.
O desafio é: o intelecto pode observar o seu próprio processo de valorização? Podemos ver o pensamento “Eu sou arrogante” ou “O meu argumento é infalível” como apenas um objeto, uma moeda sem lastro, e, assim, retirarmos o valor, a importância e o interesse que o ego investiu nele?
Se nossa mente puder fazer isso – se puder se libertar da sua necessidade de se identificar com o que pensa, para se sentir alguém -, o conflito interno cessa. Não há mais necessidade de lutarmos pela nossa “felicidade” ou contra a nossa “ansiedade”.
A liberdade é simplesmente o estado onde o observador deixou de ser o observado. O pensamento é livre para surgir e se dissolver, pois não estamos mais lá para lhe dar valor e, assim, transformá-lo em sofrimento.
Ver sem valorizar, e veremos a mente pela primeira vez.
Referências e sugestões de leitura
Byron Katie. Ame a Realidade.
David Hawkins. Deixar Ir: O Caminho do Desapego.
David Hawkins. Disolver el Ego [Espanhol].
Eckhart Tolle. O Poder do Agora.
Eckhart Tolle. Um Novo Mundo: o Despertar de uma Nova Consciência.
Jiddu Krishnamurti. Liberte-se do Passado.
Michael A. Singer. A Alma Indomável.
Paul Brunton. A Cura e O Desapego.
Walter Riso. Desapegue-se: Como se Livrar do que nos Tira Energia e Bem-estar.




