Perplexidades “normais” para um país de anormalidades: o que fazer para nos sentirmos bem?

Fatos simbólicos. Fato um. Execução absurda de vereadora evidencia a falência da segurança pública e

a intolerância em relação aos discursos e às opiniões contrárias à posição ideológica e atuação política da vítima. Liberdade de expressão e pluralismo político, portanto, no limbo.

Fato dois. País onde os criminosos condenados por juízes competentes são “vitimizados”, qualificados cegamente como presumidamente “inocentes” e, daí, considerados “perseguidos” politicamente ou pela Justiça, contrariamente ao que indica a análise dos fatos provados e as sentenças condenatórias de juízes. Paradoxalmente, esses juízes personificam o próprio Estado, o qual, constitucionalmente, é o responsável por garantir a segurança pública e a efetividade do Direito.

 Fato três. Corte “suprema” cujos integrantes não se entendem, desrespeitam regularmente a decisão plenária em prol das respectivas vontades individuais, da satisfação do ego e, previsivelmente, vêm destruindo a credibilidade do Judiciário.

O que fazermos para não nos sentirmos angustiados, desmotivados e descrentes com o futuro do país? Duas dicas preciosas: não tirarmos conclusões; e confiarmos. O que significa isso?

Não tirarmos conclusões. Estudos demonstram que, das 24 horas diárias, o ser humano, em média, dorme oito (8) e fica acordado por dezesseis (16) horas. Das 16 horas, o indivíduo fica, pelo menos, quatorze (14) horas alheio à vida real, ou com a mente pensando no passado, remoendo acontecimentos ruins, ruminando emoções negativas, lamentando-se por não ter agido diferente, vitimizando-se pela “injustiça” suportada, manifestando arrependimentos ou remorsos pelo que fez ou deixou de fazer, responsabilizando os outros pelo autossofrimento, racionalizando para justificar erros cometidos; ou projetando o futuro, “pré-ocupando-se”, autocriando ansiedades e medos, baseados em previsões ou “achismos” infundados.  Ou seja, vivemos apenas duas (2) horas por dia, atentos, concentrados nas ações do momento, do chamado presente, no aqui e agora.

O que tem a ver essa constatação com as perplexidades correntes nessas terras brasileiras do atraso social, ético e jurídico vigente e notório? Tudo. Porque se trabalharmos a nossa cabeça para interpretar os fatos do passado pelo viés do aprendizado, de modo a extrairmos deles novos conhecimentos pelas experiências pessoais e, com isso, tornarmo-nos mais inteligentes e crescermos como seres humanos, passaremos a ser mais gratos pela vida que temos. E, naturalmente, ficaremos mais concentrados e atentos nas decisões e escolhas em cada oportunidade do dia a dia, as quais certamente moldarão nossa situação do futuro. Não especulemos sobre o que ocorrerá lá na frente; não temos dados para isso. Assimilemos: passado está morto; futuro não existe. Importa apenas o hoje.

Mais objetivamente, façamos a nossa parte: reconheçamos a nossa autorresponsabilidade. Não nos “pré-ocupemos” com as atitudes do vizinho, com a falta de qualidade dos políticos em geral, com as idiossincrasias ministeriais supremas ou com a “virada de costas” para a realidade caótica brasileira, de parte dos (ir)responsáveis acadêmicos ou institucionais por zelar pelo desenvolvimento e pela efetividade do Direito, seja na teoria ou na prática. Estas são circunstâncias externas, que fogem ao nosso controle. Por isso, obviamente, perde qualquer sentido racional sujeitarmos o nosso bem-estar mental e emocional a qualquer esperança que venhamos a ter de transformação, de água contaminada em vinho do Porto de primeira linha, no curto ou médio prazo, da i) política nacional cleptocrática e de compadrio, e do ii) “direito” jabuticaba café-com-leite. Irracional!

Confiemos. Em quê? Nas leis universais, nas leis da natureza, existentes há bilhões de anos. O dualismo vida-morte do ser humano é inescapável. Tanto faz se o sujeito é ateu, agnóstico, crente ou espiritualista. Pouco importa se ele leva a vida na bandidagem, visando ao enriquecimento a qualquer preço e em detrimento da população, como muitos dos políticos brasileiros, ou se o cidadão pauta a sua passagem com o foco no valor contribuição, ajudando as pessoas, agregando-lhes sentido, colaborando com a construção de uma sociedade melhor, como o fez espetacularmente Chuck Feeney. Em algum momento, o acerto de contas chega. Doenças, prisões, sofrimentos em geral; mortes ao final. É o ciclo natural da vida; tudo se transforma. Mais cedo ou mais tarde, nossa “política”, nosso “direito”, nossa sociedade, nossas instituições serão modificadas para melhor. Consequência da resiliência ou – na linguagem de Nassim Taleb – da antifragilidade inerente à própria existência do mundo, da humanidade, das coisas. Queiram ou não os atuais detentores do poder e (ir)responsáveis pela tomada das más decisões, pois não são e jamais serão imunes aos sofrimentos imprevisíveis e tampouco, imortais.

Perguntaram ao Dalai Lama: “O que mais te surpreende na Humanidade?” Respondeu ele: “Os homens. Porque perdem a saúde para juntar dinheiro; depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente, nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.’ Dalai Lama.”

 

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