(Des)ensino brasileiro atual: seria melhor extingui-lo e começá-lo do zero!

 “Este espírito competitivo, que predomina inclusive nas escolas e nas universidades,

destrói todos os sentimentos de cooperação e de fraternidade e concebe o êxito não como resultado do amor ao trabalho bem realizado e útil, mas como conquista da ambição pessoal e supressão do medo de não triunfar.” (Albert Einstein)

“Não existe crise de educação no Brasil, nem em qualquer parte do globo. O que existe é uma deplorável ausência de verdadeira educação. Não estou usando a palavra ‘educação’ no sentido popular, referindo-me a graus de instrução. Uso a palavra ‘educar’ no sentido rigorosamente etimológico e verdadeiro de ‘eduzir’, indicando que o educador deve eduzir, desenvolver e manifestar o que já existe na natureza do educando.” (Huberto Rohden)

Dois gênios. Albert Einstein dispensa comentários. Huberto Rohden, o maior filósofo e educador brasileiro do século XX (minha opinião). Por seu desapego a ideologias e diferenciada inteligência espiritual, não era de se esperar que “especialistas”  brasileiros em educação o mencionassem, como de fato não o fazem. A sintonia de consciência entre ambos não foi obra do acaso. Tampouco o fato de terem convivido nos EUA, na Universidade de Princeton. Afinal, semelhantes se atraem; ou, nas palavras de Jim Rohn, somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos.

Postas as premissas, levanto a bola: se o fomento do espírito competitivo entre alunos i) constitui causa de abalo psicológico da criança ainda na infância, ii) forma adulto inseguro, medroso e indeciso, incapaz de tomar decisões ou de enfrentar ambientes sob condições desfavoráveis ou de incertezas, e, principalmente, iii) tem a capacidade de destruir a autoestima, a autoconfiança e a autoimagem de  potenciais Pensadores ou mesmo gênios, por que nada se faz para mudar o sistema?

Especulando, arrisco-me a dizer que o péssimo e anacrônico sistema de “educação” está enraizado em concreto e permanece aparentemente inabalável devido a pelo menos três razões.

Razão política. Qual o interesse político, para os que comandam a Cleptocracia brasileira, em educar verdadeiramente o cidadão? Resposta é intuitiva: nenhum. Muito melhor “negócio” para o (Des)governo Cleptocrático criar cotas raciais ou por níveis de renda, para facilitar o acesso, às nossas “maravilhosas” faculdades, de indivíduos que supostamente não tiveram “oportunidades” de (des)instrução, mas já se encontram em condições de votar e escolher seus “representantes”, como disse criticamente o Senador – muito acima da média – Cristóvão Buarque. Perfeito, não?

Razão moral ou axiológica. A manutenção do sistema anacrônico atual é vantajosa para os que o dirigem. No caso do ensino universitário especificamente – Direito, inclusive -, para qualquer mudança, o egoísmo terá que ser derrotado pelo altruísmo. O foco deverá ser a construção de uma educação voltada à pessoa do aluno; deverá estar na descoberta ou no desenvolvimento dos talentos individuais. A era industrial e do trabalho mecanizado, burocrático, repetitivo, já foi, como muito bem explicado por Guga Stocco. O conteúdo direcionado à expansão da criatividade e ao pensamento livre necessariamente deve substituir o modelo ultrapassado vigente. Ou seja, muitos “professores” vaidosos, intelectualmente desonestos e ideologicamente apegados deixarão de ser os donos da verdade e perderão o poder que hoje possuem e vem sendo rotineiramente mal empregado, face ao egocentrismo ou à falta de visão que lhes cegam. Naturalmente, será difícil para esses acomodados na zona de conforto do status quo apoiarem uma guinada de 180 graus do ensino universitário, em prol dos estudantes. Farinha pouca, meu pirão primeiro.

Razão familiar. Os pais são reféns. A “educação” que tiveram foi forjada pelo sistema adoecido. Então, “normal” que ofereçam aos filhos as mesmas ou “melhores oportunidades” de aprendizado do que as que vivenciaram. O problema é que, apesar das excelentes intenções, a grande maioria dos pais não enxergam que a filosofia profissional ou de trabalho reinante durante a era industrial e em todo o século passado rapidamente deixará de ter qualquer aplicação.

Além disso, por passarem boa parte do dia presos em seus trabalhos de horário inflexível, não têm tempo para estudar e se atualizar sobre o assunto, ou não querem mesmo fazê-lo, pelo cansado de terem matado mais um leão durante o expediente. Mais fácil, portanto, perguntarem para o amigo de longa data, para o vizinho ou para alguém conhecido, o que eles acham de colocar o filho num colégio “mais forte”, porque o atual está “muito fraco”. Todos regularmente concordam; viés de confirmação atendido; decisão tomada lotérica e inconscientemente com base na heurística. Heurística que, não obstante essencial para realizar escolhas e tomar decisões cotidianas, no caso da educação, falha gritantemente.

Quais são os talentos, as habilidades, das suas crianças? O que as deixa felizes? Será que os pais sabem que, das dez profissões mais procuradas atualmente, nenhuma delas existia há dez anos, como alertou Ricardo Amorim? Por inconsciência, pouco importa a eles. Paradoxalmente, os pais não percebem que o medo que sentem de estudar, de descobrir que estavam errados, de ter que firmar nova convicção e, teoricamente, de seguir contra o efeito manada é mero reflexo da formação que tiveram no mesmo modelo educacional domesticador e criador de repetidores, condizente com o que se esperava de uma formação acadêmica sob a ótica e a demanda da era industrial: alguém qualificado como um bom empregado, cumpridor de ordens, tolhido de desenvolver ideias próprias, avesso a riscos, inseguro por natureza. Mas não tem jeito: a era da informação e da tecnologia veio para revolucionar. E a exigência por mudanças urge.

     “Ninguém nasce sabendo o que vai dotar de sentido sua vida, o que vai torná-la valiosa. Ninguém possui, ao irromper no mundo, um conhecimento claro da missão que deve desenvolver ao longo de sua existência. Na medida em que desenvolve sua vida, dá-se conta de que é chamado a fazer algo com ela e que tem que descobrir por si mesmo qual seja essa missão, pois ninguém pode substituí-lo em tal tarefa.

     Somente quando se presta atenção a essa voz e se abandonam as atitudes evasivas, enfrenta-se realmente o sentido de sua existência. A busca de sentido da vida é um exercício de escuta. Apenas quando se escuta atentamente esta chamada que emerge de seu interior é possível perceber qual é a missão que se deve desenvolver ao longo da existência e o conteúdo que a dotará de sentido, que a tornará valiosa e a colmará de significado.”(Francesc Torralba. Inteligência Espiritual. 2.ªed. Petrópolis: Vozes, 2013. p.143-144)

 Referências: Francesc Torralba. Inteligência Espiritual. 2.ªed. Petrópolis: Vozes, 2013. Huberto Rohden. O Caminho da Felicidade. 3.ªed. São Paulo: Martin Claret, 2014.

 

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