Concurso público: vocação consciente e realização pessoal, ou desconhecimento e frustração?

Vivemos no país dos paradoxos, onde os cidadãos odeiam os políticos, mas, em geral, adoram o Estado.

Sempre esperançosos, aguardam inocente e comodamente, ansiosa e periodicamente, um “reajustezinho” dos salários, das aposentadorias e pensões, além dos “bolsas-esmolas” diversos. Permanecem, igualmente, em constantes e incompreensíveis expectativas de que, nalgum dia qualquer, tenhamos um ensino de qualidade e um sistema da saúde pública impecável.

Por outro lado, nós, cidadãos, fazemos vista grossa – talvez inconscientemente – para o fato de esse mesmo Estado ser governado há décadas por políticos do quilate dos que possuímos atualmente. Políticos que, não bastasse o modo guloso com que abocanham aproximadamente 50% da renda dos indivíduos assalariados via tributação direta de salários e indireta dos bens de consumo, ainda creem na impunidade, para se darem literalmente o “luxo” de saquear tranquilamente a fazenda pública, visando ao enriquecimento pessoal e às manutenções do poder e da autoridade institucional.

Não farei uma catarse, tendo o Estado, a política e os políticos brasileiros como alvos. Vou me ater em um fato corriqueiro e que sinaliza a vontade do cidadão de vincular-se ao Estado brasileiro Cleptocrático, intervencionista, paternalista e perdulário. Mais especificamente, refiro-me ao paradoxo que envolve a busca cega pela aprovação em concurso público, para tornar-se dependente do Estado, com estabilidade ou vitaliciedade, como se fosse algo “maravilhoso” e “seguro”, mesmo que, como contrapartida, o “paizão” possa não se mostrar tão bom e protetor assim, para com aqueles que se dedicaram (ou pelo menos deveriam) ao exercício de suas atribuições funcionais por anos a fio. A situação do Estado do Rio de Janeiro não me deixa mentir.

Parto da seguinte questão: por que tantos estudantes ou profissionais já formados envidam demasiados esforços para a conquista de um cargo público? Resposta supostamente fácil: para garantirem segurança; o valor segurança. Na perspectiva do concursando (o qual já fui um dia), segurança, primeiramente, significa a i) obtenção de uma remuneração mensal, regular e de montante prefixado. Também pode ser traduzida, num segundo plano, como a garantia de ii) conforto e ausência de riscos financeiros. Compreensível, naturalmente: qual brasileiro comum não gostaria de sentir-se seguro nestas condições?

O problema é que o valor segurança, como consequência de aprovação em concurso público, na prática, tende a não ser concretizado. Pode mostrar-se falacioso, utópico. Por quê? Porque não se qualifica como o valor principal e perseguido pelo interessado, mas, sim, como valor acessório. O valor principal almejado é o dinheiro. Nenhum problema, exceto por um detalhe essencial: o dinheiro será recebido em troca de sujeição compulsória à prestação de serviço que, muitíssimas das vezes, o candidato sequer sabe em que consistirá, e tampouco conhece o ambiente ao qual estará inserido!

O cidadão aprovado acredita firmemente que a sua vida será um mar de rosas, porque, agora, “terá um fixo”, como se diz no jargão popular. Contudo, empossado no cargo, trabalho começa e, junto com ele, vêm as despesas ordinárias e supérfluas, além, obviamente, das posteriores e corriqueiras lamentações, reclamações, frustrações e doenças diversas, previsivelmente psicossomatizadas a frente. E o digníssimo valor segurança passa, então, a entrar constantemente em conflito com os desvalores frustração, tristeza, angústia e depressão, bem como com o próprio valor dinheiro. Por que isso?

Pelo menos, duas causas: i) desconhecimento pelo candidato do que seja o valor felicidade e de como ser feliz; ii) desconhecimento dos seus respectivos valores pessoais, da hierarquia existente entre estes, assim como dos critérios que os definem.

Desconhecimento do que seja felicidade e de como ser feliz. Pressuponho que felicidade seja valor que todos almejem. Mas, infelizmente, poucos sabem que é valor ligado ao estado mental. E, como todo estado mental, é inconstante; oscila frequentemente, influenciado por fatores variados. Não obstante, estudos da moderna psicologia positiva, desenvolvidos por Martin Seligman e Bárbara Fredrickson (dentre outros), têm demonstrado existirem níveis diferentes de felicidade, que podem variar de pessoa para pessoa, de acordo com a média dos percentuais do dia em que cada um de nós está feliz, triste ou indiferente. Em outras palavras, o nível de felicidade é uma espécie de indicador da felicidade individual mediana, determinado pela consideração de três variáveis: i) limites estabelecidos, ii) circunstâncias da vida e iii) modo como a pessoa interpreta os fatos.

Limites estabelecidos são constituídos por dados de personalidade presumivelmente herdados dos pais. Se os pais têm perfis pessimistas ou sofrem de distúrbios psíquicos como depressão e congêneres, o nível de felicidade provavelmente nasce mais baixo do que o de um indivíduo cujos pais sejam otimistas e mentalmente saudáveis. A chamada rotina hedonista, atuando como obstáculo, igualmente interfere no limite-base estabelecido e que afetará o nível de felicidade. Como ensina Martin Seligman, “[a rotina hedonista] faz com que as pessoas se adaptem rápida e inevitavelmente às coisas boas, vendo-as como naturais. Com o acúmulo de bens materiais e realizações, as expectativas aumentam. Os feitos conquistados tão arduamente não trazem mais felicidade; é preciso algo ainda melhor, para elevar a felicidade até os níveis mais altos dos limites estabelecidos. Só que o indivíduo também vai se adaptando aos novos bens materiais e realizações. (…) Se não fosse assim, as pessoas que têm mais coisas boas na vida seriam, em geral, mais felizes do que as que têm menos. Mas as menos afortunadas são, de modo geral, tão felizes quanto as mais afortunadas. Segundo os estudos demonstraram, coisas boas e realizações importantes têm o poder de aumentar a felicidade apenas temporariamente.” (Felicidade autêntica. 1.ªed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.p.65)   Os limites funcionam, portanto, como ponto de referência inicial do cálculo estimado para o nível de felicidade.

Algumas circunstâncias da vida podem, contudo, melhorar o nível de felicidade. É o caso de um bom casamento, da busca de uma compreensão espiritualizada da vida pela religião, atribuindo-lhe um novo sentido, ou da prática habitual de comportamentos altruístas (sobre este aspecto, Adam Grant. Dar e receber. Rio de Janeiro: Sextante, 2014).  Não é o caso da circunstância externa do “ter dinheiro” ou – na linguagem dos concursandos – da conquista de “estabilidade” ou “segurança”.

A forma como as pessoas enxergam os fatos também influencia o nível de felicidade. Pessoas que tomam decisões ruins e ficam se lamentando, ora culpando-se, ora vitimizando-se, ruminando constantemente o passado, ao invés de focalizarem na probabilidade de terem aprendido algo novo com o erro, ou mesmo de terem surgido novas oportunidades de mudanças em suas vidas, terão o nível de felicidade reduzido. Pessimismo e emoções negativas são incompatíveis com felicidade. Diversamente, o otimismo, somado a emoções positivas.

Trazendo esse estudo para o contexto da vida concursandos, poderia apostar que a maioria deles opta pelo concurso, na crença de que, ao conquistar um emprego estável e com remuneração certa, ficará feliz e realizado. Engano. O concurso é tão só um meio necessário para a obtenção de um objetivo final. Objetivo que, na ótica restrita de quem está se preparando para o exame, se traduz na mera aquisição de renda fixa e estabilidade, as quais, na verdade, são noções vazias de conteúdo. Noções que, em si, carecem de sentido.

Renda fixa e estabilidade somente poderão ser valoradas, adquirindo sentidos que as justifiquem, quando analisadas sob o prisma dos propósitos de vida de cada um, e a longo prazo. “Passei! E agora? O que pretendo daqui em diante?” Pouquíssimos pensam nestas questões enquanto estão com o foco na aprovação no concurso. E, mesmo quando aprovados, não se preocupam em respondê-las. Muito provavelmente, porque tais perguntas não passam pela cabeça. A atenção passa a ser canalizada para o novo serviço e rotinas cotidianas. Ao transcurso dos dias, meses e anos, as experiências rotineiras e repetitivas são inconscientemente internalizadas pelos agentes públicos, e, o resultado disto, todos conhecemos: prestações de serviço de baixa qualidade ao público e greves periódicas, para que o Estado “paizão” tenha dó e conceda-lhes um “aumentinho”. Porque os aprovados descobriram tardiamente que o trabalho é entediante, o ambiente não era o esperado e, contraditoriamente, a remuneração “certa” mostrou-se insuficiente para pagar as contas, decorrentes das despesas naturalmente contraídas durante os picos de euforia. Dinheiro condicionando – e em confronto com – a felicidade.

Para muitos, aprovação em concurso público significará uma espécie de “prisão”, da qual apenas estarão libertos ao obtiverem o direito de se aposentar. “Agora, sim, vamos curtir a vida!” É o que denomino de irracionalidade inconsciente.  Os candidatos acreditam que a aprovação em concurso vai lhes trazer realização e felicidade, independentemente das atribuições do cargo e do contexto em que estarão enxertados. Talvez por falta de orientação ou de oportunidade, nunca tenham se dado conta que o “ser feliz” está intimamente condicionado pelos pensamentos predominantes na mente de cada indivíduo.

Desconhecimento dos valores pessoais, da hierarquia e dos respectivos critérios definitórios. Você, leitor, candidato a uma vaga para certo cargo público, autoquestione-se mentalmente sobre quais são os seus próprios valores. Identificados, procure hierarquiza-los e fixar as regras que utiliza para saber quando cada um deles é satisfeito. Uma maneira de fazer isto seria listá-los indiscriminadamente e, após, contrapor-los entre si e sob situações imaginárias, de modo que as respostas o conduza a uma sequência hierárquica provisória dentre eles, a qual sempre poderá ser ajustada.

Meu exemplo pessoal. Quando decidi prestar concurso público há 20 anos, só pensava em segurança, estabilidade e conforto; jamais pude imaginar que quaisquer outros valores teriam importância para a tomada de decisões ou fazer escolhas importantes na vida.  Nunca passara na minha mente a ideia de que inexiste segurança enquanto formos dependentes financeiramente do Estado. Hoje, ciente de como é feita a “(di)gestão” do dinheiro público pela Cleptocracia, não vinculo “segurança” a “ser titular de cargo público estável ou vitalício” (olha o Rio de Janeiro aí de novo!).

Também nunca havia pensado no que significava liberdade. Há liberdade para os que não possuem tempo disponível para estar com os filhos, ou não têm dinheiro para desfrutar a vida em família, quando e como bem entender? Ou seja, a depender da definição que dermos para “liberdade”, o critério ou a regra que indica a sua existência ou conquista poderá ser mais ou menos exigente (por exemplo, “ser livre”significa ser capaz de viajar sempre, a qualquer momento; ou equivale a poder acordar tarde todos os dias; ou é ter um bom salário para viver confortavelmente).

Simples deduzir que liberdade poderá ou não ser derivada do valor segurança ou estabilidade, normalmente associado à titularidade de cargo público. Pelo aspecto lógico, se derivada, o valor segurança se sobreporá ao valor liberdade, sendo este hierarquicamente inferior e atrelado àquele. Caso contrário, o valor liberdade irá precedê-lo, o que evidencia que a opção do estudante pelo concurso público não fora motivada por vocação consciente pelo exercício do trabalho que o aguarda. O futuro do servidor aparenta ser previsível, visto pela sua perspectiva personalíssima: trabalhando no que detesta, em ambiente possivelmente desagradável, com parco tempo livre, despesas ordinárias permanentes, emocionalmente abalado, sem esperanças de mudanças, aprisionado numa curiosa zona de “conforto”, verdadeiramente frustrado e infeliz.

Permanecer “sentado numa tachinha” é uma dor suportável para a grande maioria, devido à carência de ambições legítimas e propósitos de vida claros. Mas se, de repente, a tachinha transformar-se num prego, talvez a imagem que o indivíduo tenha da vida, ou o sentido que lhe atribui, necessariamente sejam afetados, fazendo-o buscar alternativas, ao menos, para restabelecer a higidez mental e recuperar a alegria de viver com plenitude. Posso estar errado, mas estou convencido de que, afora problemas de material e infraestrutura, uma das causas do péssimo serviço público brasileiro está denotada pelo efeito de trabalho realizado, por mera obrigação e sem qualquer prazer. E você, leitor, o que acha?

     “Como Tolstoi, muitas pessoas não conseguem evitar a sensação de que sua vida é algo vazia – independentemente do bem-estar e riqueza que possam ter atingido. Algumas pessoas têm esta sensação no auge de sua carreira; noutras, ocorre quando morre um ente querido e dão consigo a perguntar-se que sentido terá tudo isto; noutras ainda, ocorre quando os seus negócios ou projetos falham estrepitosamente. Alguns obstáculos têm a mesmíssima sensação por motivos opostos: porque ainda não fizeram coisa alguma, porque estão indecisos e não sabem que tipo de vida querem ter. Em nenhum destes casos as pessoas pensam que é indiferente ter uma vida confortável ou morrer de fome e sofrimento, amar e ser amado ou ser desprezado e odiado por todos. O que se pergunta é se tais atividades que nos fazem felizes dão sentido à nossa vida.” (Desidério Murcho. Pensar outra vez: filosofia, valor e verdade. Ebook Kindle. P.30)

     “Muita gente quer atingir uma meta sem ter saído do ponto de partida. Quer chegar a ser alguma coisa, fazer sucesso, sem ter feito alguma coisa para isso. Quer saber muita coisa sem nada estudar. Quer ser ouvida, mas não ouve. Quer que o mundo melhore, mas não melhor seu pequeno mundo. Quer justiça, mas é injusta. Quer chegar a algum lugar sem sair do seu casulo. Se você quer alcançar um fim, precisa usar os meios. Se você quer atingir uma meta, decida-se a caminhar em direção a ela, sem desperdício de tempo no caminho. Se sua meta é o sucesso profissional, nos relacionamentos, sucesso na vida, corra atrás! Para que as coisas mudem, você tem que mudar. Para que as coisas melhorem, você tem que melhorar. Para ter o que nunca teve, faça o que nunca fez.”

     “A única diferença entre o túmulo e a zona de conforto é a profundidade.” Jim Rohn.

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