Assessoria ruim: erro político despercebido e gravíssimo, além de potencial causa de descrédito pessoal e derrocada política.

Percebo intuitivamente

– quase que simultaneamente ao tomar ciência dos fatos – quando um político é mal-assessorado ou não tem uma assessoria diferenciada, o que, na prática, equivale a estar sozinho.

Chamo aqui de “diferenciada” uma assessoria que seja capaz de enxergar os acontecimentos nas entrelinhas; de intuir o que está por detrás das atitudes; de perceber os valores não declarados ou não assumidos em jogo; de fazer análises das situações de modo não convencional, heterodoxo, surpreendente ou “fora da caixa”. Em suma, é “diferenciada” uma assessoria pró-ativa, que esteja apta a se antecipar a problemas já apresentando orientações viáveis e potencialmente eficazes para atingir o fim digno que o bom político assessorado almeja.

Ainda: o assessor deve, sim, ser alinhado ideologicamente com o político. Vejo como totalmente temerário, hipoteticamente, um político de direita, conservador nos costumes e liberal na economia, colocar como assessor um sujeito esquerdista, tido por “progressista” em questões envolvendo costumes, e nacionalista, intervencionista ou controlador, no que tange à política econômica.

O motivo é simples: ambos adotam premissas completamente antagônicas para justificarem as suas opções. E, mais importante do que isto: as controvérsias políticas entre concepções “direitistas” e “esquerdistas”, invariavelmente, apresentam conflitos entre valores pessoais como pano de fundo implícito.

Em outros termos, como a hierarquia personalíssima de valores evidencia o caráter do indivíduo normalmente consolidado em função das experiências vivenciadas ao longo do tempo de idade, fica fácil notar o porquê de ser quase impossível haver um diálogo aberto e intelectualmente honesto entre homens de direita com outros de esquerda: nenhum dos dois terá a chamada “escuta ativa“; nenhum deles abrirá mão de suas premissas iniciais. Concretamente, será como uma conversa entre surdos incapazes de leitura labial e que não dominam a língua brasileira de sinais (libras).

No início do Governo Bolsonaro, Sérgio Moro havia convidado uma profissional de esquerda – Ilona Szabó – para integrar um cargo em seu Ministério da Justiça e Segurança Pública. Foi desautorizado pelo Presidente. Choveram críticas a este, tendo sido tachado de desrespeitoso para com seu Ministro. Um dos argumentos contrários à decisão do Bolsonaro foi levantado pelo Vice-Presidente, General Mourão, no sentido de ser importante ter gente que pensa diferente na equipe, pois, das divergências, podem resultar melhores decisões. Diria eu: com certeza, mas as opiniões divergentes seriam válidas não porque viriam de uma pessoa com ideologia política destoante. Isto não é realista.

A experiência comprova que, havendo premissas de base em confronto, inexistindo espaço para escuta ativa das partes e, logicamente, para que as tais premissas da argumentação que individualmente defendem sejam passíveis de ajustes ou alterações, naturalmente que não se trata desse tipo de colaborador o suposto “conselheiro indispensável”, quando se diz que “as divergências são sempre bem-vindas”.

Houve nítida confusão no pensamento silogístico: os críticos da atitude do Bolsonaro entenderam que o importante seria que alguém tivesse uma “opinião final diferente” sobre determinado tema relacionado à segurança pública. Errado. Digo que o relevante seria ter alguém que “acolhesse as mesmas premissas-base, mas fosse capaz de apresentar uma perspectiva de leitura ou análise da situação diferenciada, inesperada, surpreendente, apta a fomentar a reflexão e a propiciar a construção da melhor decisão ou resposta para o problema”. Pois, presumivelmente, só haverá produtividade num debate, acaso os debatedores partam das mesmas premissas maiores e ainda estejam dispostos a reverem-nas, à luz dos argumentos opostos pelo colega ou assessor que divirja na elaboração da sequência do raciocínio. Mas tal abertura para a escuta só ocorrerá se forem ambos apreciadores de igual ideologia política. É fato. Diria ser uma espécie de presunção absoluta aqui no Brasil, tamanhos o apego ideológico e a carência de honestidade intelectual nas discussões teóricas, chegando-se inclusive ao cúmulo de se fazer pouco caso de fatos, de circunstâncias ou de qualquer elemento que ameace a racionalidade do ponto de vista que se sustente!

Aliás, o “direito” doentio que temos é outro efeito da estagnação e atrofia teóricas, em razão da ausência de debates sérios e pautados pela honestidade intelectual, o que impede o seu desenvolvimento e a sua eficácia em nosso contexto. A realidade não mente: basta assistirmos a uma sessão plenária do STF, que esta minha conclusão é ratificada. Um Ministro fala uma coisa; o “notável” ao lado, coisa contrária e com fundamentos que escancaram a incoerência da opinião do colega que o antecedeu. Particularmente, sinto-me muitíssimo envergonhado em dar audiência para tal peça de teatro institucional; prezo muito minha inteligência, minha sanidade mental e meu equilíbrio emocional!

O ponto que se levanta é: o que faria um cidadão de ideologia semelhante à dos demais membros do grupo de assessoria, portando as mesmas premissas argumentativas, ter perspectiva(s) de análise diversa(s)? O fato de ele ter uma personalidade diferente. O fator que fará a diferença é predominantemente psicológico. É a personalidade da pessoa que a faz ser mais otimista ou pessimista, insegura ou confiante, cautelosa ou ousada, medrosa ou corajosa, pacata ou agressiva, aceitar erros ou ser perfeccionista intransigente etc.

(Sobre o assunto, recomendo a leitura de Nicolai Cursino, “Eneagrama para líderes: autoconhecimento e maturidade para o desenvolvimento de sua liderança”. 2.ªed. Rio de Janeiro: Qualitymark Editora, 2017.)

Daí, a depender das características que o indivíduo carregue consigo, chegará a soluções afeitas a elas, provavelmente discrepantes das de outros colegas. Como? Usando das mesmas premissas básicas (p.ex., privatizar todas as estatais; pôr uma trava no ativismo judicial; forçar legalmente o Presidente do Senado a dar andamento a processos engavetados de impeachment de Ministros do STF), automaticamente tenderá a buscar leituras da situação que lhe apresentem oportunidades para decidir conforme o seu grau de ousadia ou tolerância a riscos, visando à concretização do objetivo. E, para isso, trabalhará sua argumentação, valendo-se de percepções que presumivelmente não seriam consideradas por outros da equipe com personalidades diversas.

Voltando ao Governo Bolsonaro. Em sua recente análise política (11/09/19), o jornalista Cláudio Dantas chegou à mesma conclusão que a minha: o Presidente da República não tem assessoria que o permita participar do jogo (sujo) democrático em iguais condições com o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. A deputada Janaína Paschoal tem percepção equivalente.

Na minha ótica de cidadão que torce pela ruptura definitiva e consequente substituição do sistema político apodrecido, este diagnóstico de déficit de assessoria é emocionalmente angustiante, irritante senão enlouquecedor. Além do exemplo principal mencionado pelo Cláudio Dantas (Presidente induzido a erro pelas pessoa que o rodeiam, ameaçando demitir o competente Diretor-Geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, e, simultaneamente, fragilizando o seu Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro), cito alguns sintomas que atestam a “nulidade” da assessoria presidencial.

Sintoma 1 da carência de assessoria. Bolsonaro a todo momento fala pelos quatro cantos que “não sabe nada de direito”. O simples fato de repetir essa fala inconsequente denota a falta de assessoria.

Absolutamente ninguém buzina em seu tímpano a total impertinência política deste “sincericídio” bumerangue e enganoso. Enganoso, porque, por inconsciência, ele fala pelo simples fato de ainda não ter descoberto que tem potencialmente a capacidade intelectual necessária e suficiente para assegurar-lhe o conhecimento jurídico do qual precisa, na qualidade de Chefe de Poder. Advém então a questão: qual o empecilho de o Presidente da República confessar que “nada sabe de direito”? Afirmo: alguns. A eles.

Empecilho 1. Ele parte do princípio que, “saber direito”, significa “dominar teorias complicadas”. Falso: para o que interessa ao intérprete – no caso, ao Presidente da República -, “saber direito” implica resumidamente em “conhecer noções jurídicas básicas, conseguir ler um texto e atribuir-lhe um sentido coerente. É o que lhe basta, a princípio.

Saber o que significam as expressões “direito”, “privilégio”, “dever”, “competência”, “regra de conduta”, “princípios”, “conceitos indeterminados”, “cláusulas abertas”, “hierarquia entre atos normativos” por exemplo, já seria momentaneamente suficiente.

Quando Bolsonaro diz “não entender de direito”, inconscientemente, se enfraquece perante o Congresso e o STF. Qualquer ato normativo que edite (decreto ou medida provisória) não terá a defesa presidencial feita pessoalmente e com contundência. Coloca-se, assim, como uma espécie de criança sob tutela de assessores que, paradoxalmente, carecem igualmente de tutela.

Na verdade, Bolsonaro não acordou para o fato de ser dever do Presidente da República expor argumentação persuasiva, em justificativa de suas decisões. Isto, por uma razão gigante e singela: ao tomar posse como Chefe de Estado e Governo, jurou obedecer a Constituição e garantir o regime democrático. Em hipótese alguma comprometeu-se a se curvar a quaisquer decisões judiciais aberrantes e flagrantemente antijurídicas ou contrárias ao texto constitucional, sejam originárias de quem for! E sequer poderia fazê-lo. Mas lamentavelmente é o que vem fazendo. E, por isso, deu no que deu: vivemos um ditadura escancarada e despudorada do STF jamais vista na história de um país pretensamente democrático!

(Sugiro também a leitura da biografia de Luiz Gama (Luiz Carlos Santos. Luiz Gama (Retratos do Brasil negro). Nascido em 1830, filho de escrava com o seu dono, alfabetizado aos 17 anos, autodidata, estudou direito por conta própria, sem submeter-se à faculdade, e, como rábula, libertou judicialmente mais de 500 escravos. Morreu em 1882. Recentemente, foi reconhecido como advogado pela OAB/SP.)

Não à toa, a bel-prazer sarcástico, o Congresso volta e meia ameaça editar ou edita decretos legislativos infundados para revogar decretos presidenciais isentos de vícios jurídicos objetivamente perceptíveis. Sem contar as interferências supremas em políticas de governo! O Executivo? Ajoelha-se, como de praxe, diante das invasões de sua competência constitucional. Tudo acontece com ares de regularidade democrática, como se houvesse de fato respeito recíproco pela harmonia e independência entre os Poderes, bem como se as decisões supremamente bizarras fossem juridicamente aceitáveis!

Como exemplos recentes, o caso do “credito-prêmio” de IPI na Zona Franca de Manaus, cuja chancela do Supremo gerou um rombo a ser absorvido pelo Tesouro Nacional, sem que houvesse qualquer autorização constitucional objetiva neste sentido, autorizando-a, legitimando-a. Também nas diversas intimações que, como Presidente da República, tem recebido de juízes de primeira instância, que, certos da impunidade, se arrogam o poder de se intrometerem em políticas de trânsito (exigem motivos para retirada de radares nas estradas) ou ambientais (querem justificações para as queimadas na Amazônia). Sem falar de abusos oriundos do “quarto poder”, o Ministério Público, que frequentemente critica e aciona arbitrariamente o Presidente da República na Justiça, com ares de prepotência e donos da razão, para que dê explicações sobre “o porquê de ter roncado a noite inteira”. Notadamente, uma minoria de indefectíveis procuradores não se envergonha de mostrar a própria incapacidade de discernir entre uma opinião subjetiva e descritiva sobre um fato histórico e um juízo de valor moral propositalmente depreciativo; ou de identificar um assunto político-administrativo de competência exclusiva do Poder Executivo, a fim de que, episodicamente, num lapso de humildade, aflore a lucidez e a consequente contenção da sanha persecutória contra quem não reza na cartilha politicamente correta, assim conseguindo exercer o dever de tolerância ínsito ao pluralismo (CF,1.º,V), ao qual os ideólogos “fiscais” da lei não demonstram ter apreço.

Afirmo tranquilamente: se Bolsonaro fosse bem-assessorado, já estaria mais do que preparado para fazer pessoalmente a defesa dos seus atos normativos, frequentemente atacados pelo Congresso e indiscriminadamente tutelados pelo STF, não precisando se submeter a constrangimentos patéticos, como se ele, Presidente, simbolizasse uma espécie de arquétipo inimputável pela proteção do cargo, com “aptidão” inigualável para tão somente reagir no impulso irrefletido, e cuja assessoria apenas se presta a “apagar incêndios” verbais irrelevantes e evitáveis, ou opinar previsivelmente, sem geração de proveitos empiricamente constatáveis.

Empecilho 2. Bolsonaro toma decisões políticas, partindo de premissas jurídicas errôneas. A completa incongruência entre as pretensões constitucionais e os dados da realidade comprova as falsidades.

Ora, se as premissas são falsas, na posição de Presidente que jurou defender e obedecer a Constituição, ele tem o dever de corrigi-las, agindo conforme as regras vigentes. Aponto, exemplificativamente, duas premissas falaciosas e massificadas no inconsciente coletivo.

Falsa premissa 1. O Brasil é “Democracia madura“, onde as “Instituições funcionam. Não é; nunca foi. Três sólidas evidências.

Evidência 1. Fundo partidário bilionário e tempo de TV obrigatório, ambos propiciando vantagens aos grandes partidos políticos, verdadeiros feudos. É intuitivo: o sistema político-eleitoral foi delineado para inviabilizar o acesso ao poder de um “outsider” e, simultaneamente, assegurar a permanência eterna no poder dos mesmos e seus apadrinhados. Alternância? Da boca para fora.

Evidência 2. Justiça seletiva, imprevisível, com “foros” privilegiados e legislação processual que aparenta garantir a ampla defesa, quando, na verdade, intenciona e permite velada e imoralmente a problematização de infinitas questiúnculas formais perante o STJ e STF.

Por quê? Porque os códigos de processo civil e penal foram elaborados com o propósito subliminar ou oculto de autorizar anulações de processos judiciais inteiros e legítimos, por conveniências subjetivas e ocultas ora travestidas de “alegações forjadas de ilegalidade”, deixando, ao final, impunes os poderosos da vez, todos acintosamente transformados, pela via oficial, em “vítimas” de “abuso de autoridade”, por terem sido “perseguidos injustamente” pelos agentes públicos “vingativos”. A banalização do ilícito e a impunidade generalizada têm causas, endereços e responsáveis.

Evidência 3. Imprensa em boa parcela “criminosa“, que esconde dados, manipula informações, desinforma maliciosamente. Obviamente, tudo impunemente como de hábito, sempre debaixo dos abrigos da “liberdade de expressão”, da “proibição da censura” e da “proteção do sigilo da fonte”. Ninguém nega que os três fundamentos constitucionais são inequívocas garantias inerentes a regimes democráticos. Todavia, por não passarem de expressões de conteúdo indefinido, incerto e manipulável subjetivamente, jamais poderiam configurar “garantias” quando “interpretadas” de forma deturpada, “criativa” ou arbitrária pelos mais variados “especialistas“, de acordo com a simpatia ideológica ou idiossincrasias do momento.

Falsa premissa 2. O STF é o único Poder capaz de dar a última palavra sobre o sentido do texto constitucional. Ou seja, o texto constitucional sempre significará o que os onze Ministros desejarem, por ser o “guardião” da Constituição (CF,102). Engodo.

Ser guardião“, em hipótese alguma, pode ter o sentido inequívoco de “ter o poder e a competência de dar o significado que se quiser ao texto da Constituição, seja qual for a fundamentação construída para embasá-lo“. Contudo, inacreditavelmente, é nisto em que conscientes ou não acreditam os Ministros; é isto que sustentam os “especialistas” em uníssono; é em tal absurdo que creem os ludibriados cidadãos de bem, democratas por essência; é naquele “mantra maligno” que o Governo se atém para, com lastro em sua crença democrática sincera, acatar os obstáculos e engessamentos interpretativos que lhe são impostos pelo Supremo, quando eventual e aleatoriamente tolhe ou restringe as políticas governamentais, consideradas intimamente “indesejadas” pelos “notáveis”.

Esta compreensão da expressão “ser guardião”, portanto, além de equivaler à pura agressão voluntariosa à regra semântica da linguagem, faz ainda com que o STF se torne um constitucionalmente inexistente e ilegítimo Poder Moderador de fato, “abençoando” de antemão, ou “perdoando” ou “puxando as orelhas” a posteriori, toda e qualquer espécie de decisão política ou jurídica, advinda do Executivo e do Congresso, que porventura seja impugnada judicialmente por algum opositor.

Sintoma 2 da carência de assessoria. As atitudes políticas do Senador Flávio Bolsonaro evidenciam que o Presidente da República, seu pai, não tem quem lhe assopre no ouvido: “Chame o seu filho para uma conversa séria. Mostre-lhe que, além de estar cometendo o clássico ‘estelionato eleitoral’ e o subsequente `suicídio político´, está ainda, por tabela, afetando gravemente a imagem e a credibilidade do Governo e do Presidente”.

Este segundo sintoma é decorrência do primeiro. Mais especificamente, decorre do fato de Bolsonaro ignorar a falsidade das premissas jurídicas. Por “não saber direito”, vem acatando a ditadura judicial, ficando omisso não só no tocante aos acintes supremos (inquérito toffoliano, criminalização da homofobia por decisão judicial etc.), mas, sobretudo, no que se refere aos atos do filho Senador, manifestamente declarados e contrários à CPI da “Lava Toga” e ao seguimento dos processos de impeachment de Ministros do STF.

O jovem Senador está inconscientemente perdido, desorientado. Após assistir a entrevista que concedeu ao canal Terça Livre, tive a sensação de que realmente crê, de boa-fé, que esteja tomando “ótimas” e “conscientes” decisões políticas, ao se opor a investigações sobre comportamentos de Ministros do STF que serão conduzidas por Comissão Parlamentar de Inquérito.

Como motivações, repetiu retoricamente chavões notórios, previsíveis e desconexos com a tão sonhada pretensão popular de mudança no estilo de fazer política que os cidadãos de bem ainda esperam ansiosamente ver concretizadas. Pior: rompeu a própria promessa pré-eleitoral de compromisso com uma “nova política”. Que pena!

Os argumentos retóricos do Senador não passam de diversificações de argumentos terroristas. Afirmando categoricamente “não ter rabo preso“, alegou que “uma CPI vai tocar fogo no país“; “irá atrapalhar as reformas fundamentais“; “criará uma crise inútil entre Poderes“. Disse “não haver como o Senado coagir um Ministro do STF a depor numa CPI“, além de “ser proibido se investigar o mérito de decisões judiciais“. Por ser filho do Presidente, presume também que, uma suposta adesão sua ao grupo “Muda Senado” e à pauta ética defendida pelos corajosos Senadores – dentre os quais, os exemplares Lasier Martins, Alessandro Vieira e Reguffe -, afetaria negativamente a “governabilidade”, porque o seu pai Presidente seria politicamente responsabilizado, acusado de ser avalista de sua eventual postura favorável a passar o Judiciário a limpo.

Afora dois argumentos – “obrigar Ministro a prestar esclarecimentos” e “investigar mérito de decisões“, este, aliás, não sendo objeto da CPI -, digo, em paz de espírito: todos os demais são puras elucubrações faticamente insustentáveis. Não é minha pretensão desmontá-los um a um; todas as pessoas intelectualmente inteligentes, alfabetizadas e politicamente bem-informadas estão aptas a desconstruir os frágeis argumentos. Contudo, deixo manifestados alguns sentimentos pessoais, traduzidos em simples opiniões, que talvez possam servir como um conselho ou para outra utilidade.

Sinto que o Flávio Bolsonaro precisa urgentemente de assessores qualificados. Pois, se houvesse ao menos um, não faria declarações tão rasas, data venia! Em uma só entrevista, transmitiu-me a sensação de estar plenamente alienado, inconsciente, desconectado dos fatos. Passou-me a ideia de que menospreza, mesmo sem querer, a inteligência da grande maioria de seus eleitores, como se fossem incapazes de captar e compreender a falida realidade política e jurídica brasileira. Não bastasse, rasgou a sua palavra dada em prol do compromisso com a mudança no modo de fazer política no Brasil, resgatando-se a ética.

Por desconhecer como cumpri-lo, sobrou-lhe um único subterfúgio, do qual – a meu ver – faz uso igualmente sem a devida consciência: racionalizações sucessivas como mecanismo de autodefesa moral. Ainda: particularmente, não me importo por ora se a investigação que sofreu foi ilegal. Isto não está em discussão, pois há, sim, suspeitas de ter havido abuso de autoridade, por quebra de formalidades legais, da parte de Promotores de Justiça ideologicamente tendenciosos que conduziam o procedimento investigativo.

No entanto, para um “Bolsonaro-raiz” que conquistou a confiança de milhões de eleitores ao ter tido a sensibilidade de ler, apreender e “comprar” para si as demandas populares por segurança, ordem e moralidade, comprometendo-se publicamente a lutar por todas, não basta ser honesto; torna-se imprescindível e identicamente prioritário aparentar sê-lo.

Até o momento (13/09/2019), o Flávio não demonstrou ter despendido o mínimo esforço para tentar limpar a sujeira que fora colada em sua imagem; talvez, por ter absorvido a crença de que a “ilegalidade em si” tenha a “força corrosiva de 1 litro de cloro”, tal como vem querendo nos empurrar a forceps goela abaixo os semideuses “garantistas” supremos, mediante suas risíveis teses “bandidólatras“, insustentáveis em qualquer democracia verdadeira de primeiro mundo.

E a massa de eleitores dos Bolsonaros? O que deve estar pensando? Salvo os extremos opostos do espectro da massa, onde se situam os inocentes incautos e fanáticos míopes e psiquicamente afetados que provavelmente se satisfizeram com a situação nebulosa como está, se possível, apostaria os bilhões surrupiados do Tesouro (se meu acerto pudesse de fato ocasionar a instantânea devolução à Fazenda Pública de toda a grana, devidamente corrigida) na suposição de que a massa – numa linguagem eufemística e polida – encontra-se emocionalmente bastante incomodada, com dúvidas cruéis e muitas “pulgas atrás das orelhas”, face ao silêncio senatorial ensurdecedor.

Consequência disso? O Flávio Bolsonaro despiu-se da autenticidade e empatia. Sua credibilidade derrete às claras. Hoje, tão só se agarra a palavras com emanações de boas intenções e vazias de conteúdo. Garantir a “governabilidade”… O que seria isto, no âmbito da “nova política” que o Senador tanto exaltou mas nunca soube traduzi-la, e, agora, presumidamente a abandona de vez?

Simples: significa fazer o certo, com a motivação correta, sendo fiel à própria essência, aos próprios valores, à própria consciência. Fazer política desapegada de preocupações com reações hostis – e fora de seu controle – de integrantes desonestos da “velha política”, não saciados em seus interesses patrimonialistas, antirrepublicanos e inconfessáveis.

Governabilidade“, dentro da natimorta “nova política”, seria o Senador Flávio Bolsonaro, no âmbito de suas atribuições, aderir ao grupo “Muda Senado”, confiando de antemão na inteligência, na intuição e no senso de retidão de seus eleitores, que certamente não o condenariam por assumir riscos políticos moralmente inevitáveis ou mesmo obrigatórios, tal como se caracterizaria uma declaração pessoal e induvidosa de repúdio contra os desmandos ativistas e hiperbolicamente inventivos do STF. O eleitor inteligente sabe reconhecer quando a hipocrisia dá as caras. E ela aflora no exato instante em que a autenticidade e a empatia perceptivelmente minguam ou desaparecem na pessoa que discursa.

Ao ponto novamente: intuo que a ausência de assessoria, composta por pessoas com discernimento e sabedoria, é flagrante no caso do Senador. Porque, uma assessoria decente, incentivá-lo-ia a usar positivamente sua influência política para ampliar e robustecer o grupo “Muda Senado”; nunca, enfraquecê-lo, buscando sabotar as pretensões legítimas dos nobres Senadores – e que angustiam a (quase) totalidade dos eleitores “bolsonaristas” íntegros – de apurar condutas para lá de duvidosas de Ministros até então intocáveis e, ao final, de levar transparência e credibilidade a um Judiciário, atualmente sob intensa desconfiança e em grau crescente de desmoralização.

A boa assessoria seria certeira: “Senador, despreocupe-se com a opinião ou reatividade de políticos, porque você apenas deve satisfação à sua consciência. Sua credibilidade foi construída em anos, mas pode ser destruída em segundos.”

Também poderia alertá-lo: “Senador, segundo Jim Rohm, renomado estudioso do sucesso e do desenvolvimento pessoal, o ser humano é a média das cinco pessoas com quem ele mais convive. Considere os familiares como um todo sendo uma única pessoa. Quem seriam as outras quatro? Preciso lhe dizer mais alguma coisa? Acho que não.”

Penso que uma assessoria confiável não deveria ter uma visão tão só materialista da vida. Será que a vitória do Jair Bolsonaro para Presidente da República não ensinou lição alguma aos bons e honrados políticos existentes e em atividade? Um homem isolado, quase morto, com todo o sistema cleptocrático querendo incessantemente massacrá-lo, venceu.

As duas lições universais sinalizadas foram de simples captação para os que possuem uma visão holística da vida: i) O homem tem o controle apenas sobre os seus atos. ii) As consequências são fatores externos incontroláveis e independentes da vontade humana. Mas o materialista, que sempre focaliza ou tem como única ou preponderante razão para agir a busca por dinheiro, poder ou prestígio, não está em condições de aprender e despertar a consciência com as mensagens sutis que os fatos do dia a dia sinalizam ininterruptamente.

Um Governo eleito com o mote da “nova política” e da defesa intransigente do combate à corrupção e à criminalidade vai transmitindo – sinto que a contragosto – a mensagem de que “não era bem isso”. Pela lógica aparente e calcada na concatenação das informações divulgadas pela imprensa, tende a ser difícil discordar da conclusão de que o Governo, evidentemente inábil para lidar com chantagens e sabotagens ocultas e difusas da “velha política”, cedera moralmente e aderiu a um “acordão” com os demais Chefes de Poderes, para garantir a tal “governabilidade” via aprovação das reformas econômicas essenciais e, secundariamente, apoiando uma frenagem nas investigações de parlamentares e empresários no foco da Lava Jato. Pessoalmente, prefiro não prejulgar; aguardo ocorrências concretas. Oito meses de Governo é pouquíssimo tempo para desconsiderar o benefício da dúvida sobre a sua real e louvável missão de restaurar, pelo exemplo, o mínimo ético aceitável nas relações políticas.

Como errar e aprender com erros é honroso e pressuposto evolutivo, sendo de extrema burrice e “terrivelmente antievangélico” escolher a permanência no erro mesmo após conhecê-lo, diria respeitosamente para o Presidente e seu filho Flávio, Senador pelo Rio de Janeiro: “Diferentemente do que os senhores têm em mente, as suas atitudes, por mais bem-intencionadas que sejam, ao invés de ajudarem o Governo, têm desencadeado efeitos exatamente inversos: deixam as sensações de desconfiança, frustração e traição no ar. O derretimento da confiança será politicamente fatal. A Argentina mora ao lado. Reflitam; e busquem assessoria ‘para ontem’.”

“As fronteiras da crença são verdadeiros horizontes de eventos, porque a mente não consegue ir além, embora para alguém que esteja do lado de fora as fronteiras não existam.”

“Todos nós tentamos mascarar nossas limitações com falsas atitudes; faz parte da natureza humana tentarmos parecer melhor do que realmente somos, especialmente aos nossos próprios olhos. Mas uma vez estabelecida sua intenção na direção certa, a autoilusão se torna irrelevante. Você ainda terá que enfrentar as necessidades do ego; ainda terá que continuar a representar seus próprios dramas pessoais. Tal atividade tem lugar no palco da primeira atenção; nos bastidores, o espírito possui seus próprios dispositivos – sua intenção é como a planta de um projeto entregue a Deus, que ele executa a seu próprio modo. Às vezes, ele usa um milagre; às vezes, ele apenas assegura que você não perca o avião para Nova York. O fato de que qualquer coisa pode acontecer é a beleza e a surpresa da vida espiritual. Estranhamente, as pessoas que se sentem poderosas e bem-sucedidas muitas vezes colocam as piores intenções em movimento, no que diz respeito ao crescimento espiritual.” (Deepak Chopra. Como conhecer Deus. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p.358;362.)

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