Ainda os servidores públicos…

O jornalista J.R. Guzzo escreveu um artigo na Gazeta do Povo online,

cujo título é a afirmativa Ninguém concentra mais renda nesse país do que a nobre casta dos “parasitas, fazendo alusão à expressão usada pelo ministro Paulo Guedes, que havia classificado genericamente o serviço público brasileiro como parasitário e, por isso,  recebeu uma saraivada de críticas de todos os patrocinadores do discurso politicamente correto.

O Guedes se desculpou pela generalização, numa espécie de mea culpa sincera. Generalização que, sempre quando feita irrefletidamente, acaba sendo de algum modo equivocada, porque, inevitavelmente, tende a ser – na linguagem do jurista norte-americano Frederick Schauer – sobreincludente, em razão de abranger potencialmente mais hipóteses do que deveria. No caso, colocou todos os servidores, bons e maus, no mesmo balaio.

A depender do enfoque que se dê ao volume do gasto com o servidor público, a opinião do Guzzo também pode acabar sendo errônea. Pois a maior fonte de gastos geradores dessa concentração de renda não são os salários dos servidores em geral, mas, sim, a estrutura legislativa e judiciária, e as despesas com – e de – políticos, nas três esferas de poder: federal, estadual e municipal. São centenas de bilhões de reais para sustentar o Legislativo e o Judiciário faraônicos, ineficientes, ineficazes senão desprezíveis e inúteis, em vista do que produzem hoje em prol do país, da sociedade, dos cidadãos e contribuintes. As desordens jurídica e social, perceptíveis pela banalização do ilícito e impunidade generalizada, ambas institucionalizadas, são sintomáticas. Em compensação, a qualidade do serviço prestado… Qualquer pesquisa séria é capaz de atestar esse cenário nebuloso.

Vende-se, então, uma mentira, com argumentação retórica que impressiona, considerando-se a desinformação, a manipulação de dados, e o contexto social com milhões de desempregados, pobres e miseráveis. Milhões de pessoas que são inescrupulosamente vitimizadas pelo discurso confortante e perverso do coitadismo e da desigualdade, fundado numa espécie de determinismo social inafastável, absoluto e fictício com aparência de real, e que hoje são francamente dependentes do Estado ou da vontade política. Eis a mentira ventilada pelos quatro cantos do país: que o gasto público excessivo decorre de salários, aposentadorias e privilégios, impedindo que esses milhões recebam do Estado o que “merecem por direito e por justiça”.

 Óbvio que existem privilégios. Contudo, para somente uma minoria de servidores que domina o “direito” e a política(gem), numa simbiose extremamente bem azeitada. Sobretudo na cúpula. Minoria que faz de tudo, e mais um pouco, para não perder suas mamatas. Afinal, as “interpretações” jurídicas e as racionalizações políticas para se “justificar” o status quo acintoso estarão sempre disponíveis a ela, a única dona da “verdade”.

“Verdade” que, a depender da conveniência da ocasião, estará sempre passível de ser (re)inventada e institucionalizada, ou de, repentinamente, passar a ser tratada como “mentira”. “Verdade” que se impõe goela abaixo da população e dos que não rezem na mesma cartilha dessa minoria, a verdadeira casta privilegiada e que atua, com criatividade ilimitada, em causa própria. Os filmes supremamente pornográficos criados em torno da ordem de oitiva de réus delatores e não delatoresmentira transformada em “verdade”, para se anular processos válidos e livrar graúdos criminosos de condenação certa, sob a pecha de uma legalidade forjada na cara dura – e sobre a prisão em segunda instânciaverdade convertida em “mentira”, com marginal tornando-se vítima, e esta, em vilã – servem como exemplos trágicos.

Mas essa casta é covarde; blinda-se com os próprios privilégios que cria e avaliza para si, além de esquivar-se da frente de batalha. Não obstante, vale-se do poder que ocupa no Estado para não sofrer ataques diretos dos que desejam e pregam o fim dos privilégios usufruídos por ela. Não à toa, a conta é jogada nas costas da parte fraca: a massa de servidores, desprivilegiada, malpaga, sem condições de trabalho decentes, responsabilizada.

Coisa típica de regime socialista, onde o topo decide pessimamente, é irresponsável por seus atos e, ao final, quem responde pelas catástrofes acabam sendo os idiotas úteis. Idiotas, muitos deles, que paradoxal, irrefletida e inconscientemente apoiam e defendem a casta minoritária que os ferra sem a mínima compaixão. Idiotas com ambiente de trabalho muito aquém das estruturas e condições imperiais que possuem a casta minoritária; casta que vive hipócrita, irônica e sarcasticamente de costas para a realidade. Realidade que a casta não experimenta, faz de conta não enxergar, considera não lhe pertencer e tampouco pretende por ela se responsabilizar. Ayn Rand e seu espetacular “A Revolta de Atlas, mais atuais do que nunca! Frisando novamente: esta minoria é a parte forte, com poder político e jurídico; é a que faz as leis e as manipula por “interpretações” convergentes com os próprios interesses, atendendo a interesses privados ou corporativistas inconfessáveis.

Por outro aspecto, essa massa majoritária de funcionários, mas política e juridicamente fraca, fez por merecer a fama ao longo do tempo, diante do serviço lamentável prestado em geral, independentemente da estrutura muitas vezes precária à disposição. Falo do trato pessoal com o cidadão, da má vontade nos atendimentos, da procrastinação pela preguiça, de recusas em resolver rápido algum problema do contribuinte, escorando-se em formalidades, escudando-se em argumentos burocráticos etc. Óbvio que não estou me referindo à minoria de excelência ora inclusa nessa massa fraca, que também, por tabela, leva o estigma.

No final, o desfecho da história dentro desse contexto confuso e facilmente manipulável pelos detentores do poder é hiperprevisível: a responsabilidade recai sobre o boi de piranha da vez, os servidores de fora da casta, os quais, de certo modo, têm boa parcela de culpa de serem tachados de “parasitas”, em função de suas atitudes. Os fatos falam por si; a constatação é empírica; não, teórica.

Agora, há que se fazer justiça, inclusive com os maus servidores: pelas ausências de controles efetivos de mérito e critérios objetivos e precisos de avaliação, bem como de fiscalização honesta a cargo de gente íntegra, insuspeita, intelectualmente honesta e avessa à caça de “culpados”, mostra-se extremamente temerário acusar ou responsabilizar individualmente algum servidor pela insatisfação com que o público externo tem para com o serviço público como um todo.

A modificação da visão estigmatizada do serviço público brasileiro, em que reinam a leniência, a ineficiência, os vícios e, de fato, o “parasitismo”, no apagar das luzes, caberá única e exclusivamente aos próprios servidores, sejam ou não integrantes da casta minoritária e poderosa. É questão de valores morais – tais como empatia, humildade, respeito e altruísmo -, de caráter, de despertar a consciência pelo desapego de crenças, pela escuta ativa, pela autorreflexão constante e pelo autoconhecimento. É questão de mudança de comportamentos e atitudes, de levar a sério uma simples peculiaridade presumidamente desprezada: nascemos por alguma razão e vamos morrer, sem levarmos absolutamente nada de material para o túmulo ou crematório.  Mas do que qualquer outro indivíduo, é o próprio servidor, isolado em seu quarto e olhando para o espelho, que saberá lhe dizer o que fazer. A racionalização que (in)conscientemente utiliza como praxe para se autoiludir, atenuando o desconforto da dissonância cognitiva emocionalmente sentida, enraizada em seu íntimo e com potencial para fustigá-lo em momentos de solidão, não o socorrerá ao ver a máscara cair para si.

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